Nos últimos quarenta anos, a China percorreu uma trajetória singular: ao mesmo tempo em que se integrou às dinâmicas globais do capitalismo, tornou-se a segunda maior economia do mundo e manteve um modelo político centralizado. Esse duplo movimento tem despertado debates intensos entre economistas, cientistas políticos e filósofos sociais, que buscam compreender se o país estaria gestando uma nova forma de organização socioeconômica capaz de superar os limites do capitalismo contemporâneo.
A China responde por mais de 18% do PIB mundial e é líder em setores estratégicos como inteligência artificial, telecomunicações e energias renováveis.
O país concentra cerca de 30% da produção industrial global, mas também investe pesadamente em inovação: em 2023, destinou mais de 2,4% do PIB para pesquisa e desenvolvimento, superando a média da União Europeia.
No campo ambiental, embora ainda seja o maior emissor de CO₂, a China lidera em capacidade instalada de energia solar e eólica, representando mais de 40% da expansão global nesses setores.
O que torna o caso chinês particularmente instigante é a combinação de elementos que, juntos, podem configurar um socialismo renovado, tais como:
- Tecnologia avançada: uso de big data e inteligência artificial para planejar políticas públicas, otimizar transportes e monitorar cadeias produtivas.
- Planejamento estatal flexível: diferente do modelo rígido do século XX, o Estado chinês atua como regulador e coordenador, permitindo a coexistência de empresas privadas e estatais em setores estratégicos.
- Sustentabilidade ecológica: a transição energética é tratada como prioridade nacional, com metas ambiciosas de neutralidade de carbono até 2060.
- Nova ética coletiva: há uma valorização crescente de noções como “prosperidade comum”, que busca reduzir desigualdades sem abrir mão do crescimento econômico.
Esse arranjo não deve ser visto apenas como alternativa ao capitalismo, mas como uma tentativa de síntese. O trabalho é redefinido pela automação e pela digitalização; a propriedade assume formas híbridas entre estatal, coletiva e privada; a inovação é guiada por objetivos nacionais de longo prazo e a comunidade é pensada em escala planetária, com a China se apresentando como protagonista em temas globais como clima e infraestrutura.
Ainda é cedo para afirmar se esse modelo se consolidará como uma nova etapa histórica. O que se observa, porém, é que ele desafia categorias tradicionais de análise. Não se trata de repetir fórmulas do passado, mas de experimentar uma arquitetura inédita de socialismo, que pode inaugurar debates intelectuais profundos nas próximas décadas.
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