Quando se é jovem, bem jovem, muitas vezes não se sabe ao certo que rumo tomar, que escolhas fazer, e talvez a que mais lateje na mente dos jovens seja aquela velha pergunta: O que você vai ser quando crescer?
E quando se está adulto diante dela, é como se toda a graça que ela costumava ter quando éramos criança e simplesmente respondíamos: policial, astronauta ou jogadora de futebol, como eu costumava dizer, fosse anulada.
Lembro-me de ter dezessete anos e longos cabelos cacheados que quase tocavam minha cintura, quando entrei no Curso de Licenciatura Plena em Letras. Dezessete anos, mas já sabia bem o que queria. Queria ser professora!
Mas, e a ideia pueril de ser jogadora de futebol? Ué, era apenas uma ideia pueril, como tantas outras de que se ocupa o incrível cérebro infantil.
O que eu desejava, a verdade que eu professava, era essa: ser professora!
Mais idealista que hoje aos dezessete anos? Talvez, mas hoje, não menos sonhadora. Eu sou a professora que desejei me tornar. Não fui obrigada por ninguém a fazer e assumir essa escolha, pelo contrário, há ainda quem se surpreenda por essa minha consciente opção, e isso devido à constante, intencional e planejada desvalorização da classe, se é que ainda posso chamá-la assim.
Não, não me tornei professora por falta de opção ou incapacidade para ocupar qualquer outra função. Não, o magistério não é um sacerdócio, como alguns costumam dizer, definitivamente, não é. Mas o magistério também não é, e isso é tão ofensivo, que nem parece ter saído da boca de um ministro, uma declaração de incapacidade, um escape, um bico, para aqueles que não foram capazes de assumir outras funções.
Confesso que, de certa forma, essa declaração, por mais ultrajante que seja não me surpreende. Se vinda de um ministro de um governo para o qual os livros têm muitas palavras? Não me surpreende mesmo!
O que me surpreende nesta e em outras colocações igualmente abomináveis, das quais temos sido testemunhas históricas, é o silêncio daqueles que se indignam com elas.
Não, Sr. Ministro, eu não sou professora por falta de opção ou capacitação para ocupar qualquer outra função. Eu sou professora, porque fiz uma escolha consciente a respeito de minha profissão, e porque a professo diariamente nas salas de aula, com ética e dignidade, palavras cujos significados sejam talvez ignorados pelo senhor.
Suas palavras raivosas, ofensivas, na verdade só servem-me de incentivo, porque, sobretudo, sou professora para tentar evitar que pessoas como o senhor cheguem ao poder. Sou professora porque amo os livros cheios de palavras que senhores como o senhor abominam. Não, eu não os temo, eu os amo! Amo as palavras e seu poder transformador, amo a sala de aula como palco das mais profundas transformações humanas.
Amo a ideia verdadeira de que a educação é a arma mais poderosa de emancipação do ser humano! Amo ver essa verdade concretizando-se diante dos meus grandes olhos verdes, nas salas de aula, cheias de seres humanos em formação, que eu, igualmente amo!
Sr. Ministro, eu sou professora, porque jamais me sujeitaria a ocupar um cargo que não corresponda aos meus sonhos, desejos e ideias, enquanto ser humano.
E porque dedico-me a essa minha escolha é que declarações como essa feita pelo senhor precisam, devem ser repudiadas.
Se voltasse no tempo, nos meus dezessete anos e longos cabelos compridos cacheados, estejam certos, eu faria a mesma escolha! De fato, eu escolho todos os dias ser professora, quando me preparo, dirijo-me à unidade escolar, quando cumprimento meus alunos, esses seres humanos tão incríveis, quando ensino e aprendo com eles na sala de aula e fora dela.
Mas... bobagem minha, o Sr. Ministro jamais entenderia isso. Inclusive, há quem chame loucura ser professora num país como o nosso, que odeia seus mestres, haja vista a perseguição a Paulo Freire, tema de minha dissertação de pós-graduação.
Eu não chamo de loucura, visto que fiz e refaço todos os dias conscientemente essa escolha. Eu não chamo de sacerdócio, visto que não sou santa. Eu não chamo de falta de opção, porque, honestamente, há inúmeras profissões, muito mais rentáveis, por sinal.
Eu chamo de escolha. Ser e continuar professora nesse país, que tem por ministro da educação um senhor que ofende seus educadores, é uma escolha, sempre será minha escolha, Sr. Ministro!
0 Comentários