Premiado escritor e ilustrador vem a Bragança na Semana Literária

Encerramento da Semana contará com lançamento de livro e entrega de premiação do III Prêmio Literário Cidade Poesia

 

A Ases (Associação de Escritores de Bragança Paulista), em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, está promovendo a Semana Literária.

A iniciativa faz parte da programação do Maio Cultural e começou nessa segunda-feira, 12, quando o projeto Livro no Ponto teve início. Trata-se da distribuição gratuita de livros nos pontos de ônibus de Bragança Paulista. O objetivo é difundir a leitura, oferecendo ao usuário do transporte coletivo a oportunidade de levar o exemplar para casa e devolver, depois de lido, em outro ponto de ônibus. O Livro no Ponto acontece até o dia 17, sábado.

Nesta quinta-feira, 15, às 20h, será realizada a abertura oficial da Semana Literária, com o show Serenata ao Luar, com Irmei Liz e Banda.

A partir das 19h de sábado, 17, ocorrerá o lançamento do livro “A menina da Favela”, romance da renomada escritora Simone Pedersen. Em seguida, a Ases promove o Sarau com sopa de letrinhas e a entrega do III Prêmio Literário Cidade Poesia.

De 15 a 17 de maio, haverá exposição e venda de livros de autores bragantinos, das 9h às 17h. Os livros estarão com preços reduzidos.

E no dia 16, sexta-feira, vem a Bragança Paulista o premiado escritor e ilustrador Walther Moreira dos Santos, que ministrará palestra a partir das 20h. Ele falará sobre “O lugar do livro em um mundo cada vez mais virtual”. Por intermédio da Ases, Walther concedeu entrevista, via e-mail, ao Jornal Em Dia. Confira:

 

Jornal Em Dia – Muitas pessoas falam que um dia o jornal impresso irá acabar devido à maior variedade de possibilidades e à agilidade que a internet oferece. De certa forma, o tema de sua palestra aborda esse assunto. Sem a pretensão de que você antecipe as informações, o que você pode falar sobre isso?

Walther Moreira dos Santos – Antes de tudo, convém lembrar que estamos falando de um direito, o direito a ler, que ainda não foi socializado. Então, o fechamento de uma livraria física no centro de São Paulo é algo triste e lamentável, mas não é nada se comparado aos milhões que têm acesso, cada vez mais, aos conteúdos digitais. Vivemos em um país continental, mas não temos essa noção, sempre pensamos o país como sendo apenas os grandes centros; não é incrível que eu viva no interior de um estado economicamente pobre como Pernambuco e mesmo assim possa ler livros disponibilizados por uma universidade na Inglaterra ou em Portugal, por exemplo? Não temos recursos suficientes no planeta para socializar o livro ou o jornal impresso para 7 bilhões de pessoas, desse modo, os conteúdos digitais podem mudar para sempre a História da Humanidade pois é um modo de inclusão nunca antes disponível.

No entanto, os livros e jornais impressos não acabarão, do mesmo modo que o DVD e depois o blu-ray não acabaram com o cinema. O que temos em vista, com os livros e jornais digitais, em verdade, é a oportunidade de pela primeira vez na História da Humanidade, difundir a leitura.

 

Jornal Em Dia – Grande desafio da atualidade é motivar as crianças e jovens a ler. A maioria prefere as telas do computador ou mesmo videogames a pegar um bom livro e viajar na imaginação por meio de suas páginas. Você defende que os pais, professores e responsáveis em geral insistam na motivação do público infantojuvenil para a leitura de livros? Como fazer isso?

Walther Moreira dos Santos – E se eu lhe disser que essas crianças que procuram por videogames estão procurando as mesmas coisas que os leitores buscam nos livros? A indústria americana de cinema sempre foi o mercado mais rentável do mundo, mas isto começou a mudar há alguns anos e sabe por quê? Porque as produtoras de videogames começaram a contratar roteiristas de Hollywood, de modo que os jogos ficaram mais complexos e, tal os filmes, passaram a, também, contar histórias.   

Somos, naturalmente, grandes consumidores de histórias. Nosso grande problema está no modo como a leitura é apresentada às crianças. Quando nasce uma criança no Brasil ela não ganha livro de pano, por exemplo, ela ganha camiseta do time de futebol do pai; desse modo, essa criança vai, para sempre, associar futebol com afeto. Por isso, vemos filas imensas nas entradas dos estádios e não vemos essas mesmas filas nas entradas das livrarias.

Quantos desses pais que levam os filhos aos estádios já os levaram também a uma livraria?

Por incrível que pareça, a solução é bem Simples: quero que seja aplicado ao livro as mesmas técnicas que são aplicadas a qualquer outro produto. O que faz um produto quando precisa entrar no Mercado? Primeiro, degustação gratuita. É preciso presentear crianças com livros, para degustação. Dessa maneira, desde cedo a criança associará o livro com prazer, com afeto. Melhor ainda se essa criança escolher esse livro numa livraria. 

E nunca, nunca mesmo, devemos repreender essa criança se acaso ela não ler, pois é um direito inalienável da criança de não querer ler, de não gostar do livro, pois esses são sagrados direitos de todos os leitores, não importa a idade.

 

Jornal Em Dia – Você também abordará em sua palestra a contação de histórias. De certa forma, os adultos podem ser apontados como responsáveis pela não-motivação ao hábito de ler e manusear livros de seus filhos ou crianças com quem convivem por não terem o costume de contar histórias a eles, haja vista que antigamente isso era bastante comum e hoje nem tanto?

Walther Moreira dos Santos – Você já deve ter visto esta cena: a mãe ou o pai manda o menino se trancar no quarto com o livro (geralmente algo imposto pela escola) e só sair de lá depois de algumas – penosas – horas de leitura, enquanto vão assistir a novela ou ao telejornal.

Daí eu pergunto: o que esses pais estão fazendo diante da tevê? Estão vendo histórias, contadas pela vida real no telejornal ou contadas pela ficção na telenovela. O que podemos apreender desse cenário? É simples: é preciso fazer com que esses pais, esses adultos, descubram o antigo meio de contar história dos livros, entendo que fazer dos pais leitores é a parte mais importante desse processo.  

 

Jornal Em Dia – Apesar dos avanços da tecnologia terem afastado as pessoas dos livros impressos, eles ficaram mais acessíveis financeiramente. Você acha que ainda há possibilidades de que a sociedade passe a dedicar mais tempo a ler os impressos do que navegando na internet?

Walther Moreira dos Santos – Uma editora americana, receosa de investir muito em impressão, distribuição e mídia em uma autora completamente desconhecida, fez um acordo com o agente dessa autora e ofereceu o primeiro volume de uma trilogia totalmente de graça, na internet. O sucesso foi tão grande que só as cópias impressas do segundo volume da saga venderam de cara mais de 100 mil exemplares, quando o normal para um autor desconhecido, no mercado americano, é algo em torno de 30 mil exemplares.

Li a versão digital do livro SUBLIMINAR, do Leonard Mlodinov, e como me tornei fã do autor, mandei buscar o outro livro dele, dessa vez numa versão impressa.

É preciso haver degustação para que se crie um consumidor e o livro digital é um meio maravilhoso de prover essa degustação.

 

Jornal Em Dia – Certa vez, um artista da música sertaneja afirmou que a pirataria o ajudou a ficar mais conhecido e alavancou sua carreira. Você acredita que a divulgação de obras literárias na internet também produz esse efeito de promoção de seus autores?

Walther Moreira dos Santos – A divulgação sempre foi algo caro que sempre influenciou o preço final de todos os produtos, agora ela sai praticamente de graça e é claro que isso é algo maravilhoso; conheço uma autora que possuí mais de 250 mil seguidores no twitter, isto não é incrível?

 

Jornal Em Dia – Além de escritor, você é ilustrador. Acha que as ilustrações dos livros são um atrativo para os leitores, especialmente os mirins?

Walther Moreira dos Santos – A ilustração funciona como a beleza física em uma pessoa: pode até atrair, mas não convence. O que convence é o texto, os mais de 50 tons de emoção da história contada. É verdade que uma imagem às vezes vale mais que mil palavras, mas também é verdade que a imagem que internamente criamos, ao lermos, por exemplo, Ana Karenina, vale mais que mil telas pintadas sobre essa personagem.

 

Jornal Em Dia – Você poderia falar sobre o livro “O Ciclista”, de sua autoria, que recebeu o Prêmio José Mindlin de Literatura. Qual a importância desse e de outros prêmios que você recebeu tanto como escritor como ilustrador?

Walther Moreira dos Santos – Costumo dizer que o livro é uma mensagem colocada numa garrafa, atirada ao mar do mundo; quando alguém não só lê essa mensagem como também a destaca, dentre centenas de outras, como foi o caso de O Ciclista, que teve 501 concorrentes, significa que o autor não está mais sozinho na ilha deserta de quando ele soltou a garrafa no mar. Sua mensagem foi não só encontrada como também Compreendida. E ser compreendido é um dos maiores desejos de todo ser humano. Equivale a ser amado.

 

Jornal Em Dia – Fique à vontade para convidar a população a participar de sua palestra e também para quaisquer outras colocações que julgar necessárias.

Walther Moreira dos Santos – Não gosto do termo “palestra”, que me soa esnobe e inoportuno, prefiro usar o termo Encontro, que é muito mais apropriado a quem faz arte; encontrar o Outro é o objetivo da arte e meu coração está ansioso para vencer os milhares de quilômetros que me separam de Bragança.

 

Com exceção do Livro no Ponto, os demais eventos acontecem no Centro Cultural Geraldo Pereira, no Matadouro, e todos são gratuitos.

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