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SUB-VERSÃO

RESOLUÇÕES

Debruçada pela mesa ainda enfeitada com as cores do Natal, ela pensava em suas resoluções para o novo ano. Retomar a dieta, fazer ainda mais exercícios, estudar mais, ganhar mais dinheiro, o que proporcionaria mais viagens, dedicar-se mais aos pais e ao relacionamento com  o namorado.

E esse matutar vinha sempre, todo ano, acompanhado de muitas cobranças e muita culpa e quase nenhum reconhecimento. A mulher diante do espetáculo da vida limitava-se a estabelecer metas muito pouco prováveis de serem cumpridas, por inalcançáveis que eram. Será que já não fizera o suficiente no ano que passou? Se não o suficiente, ao menos o possível e necessário?

Não, esse pensamento nem passava por sua cabeça. Queria mais, precisava ser mais e melhor, cobrando-se o tempo todo, sentindo-se frustrada quase todo o tempo também.

E enquanto pensava e sentia a cabeça ferver, formulando ideias mirabolantes para atender a seus anseios e cobranças, a vida seguia sendo vida lá fora. As árvores da pracinha brincavam de dançar ao balanço do vento, que mias tarde, muito provavelmente traria consigo a chuva. Pardais e bem-te-vis seguiam buscando migalhas de pão e cantando a graça de terem-nas encontrado. O sol seguia altivo, pontual e necessário como sempre, Rei que é, sem a menos necessidade de se impor ou tentar parecer mais vívido que ontem. As abelhas e moscas e insetos de todos os tipos cumpriam sua rotina, com esmero e delicadeza. Cachorros latiam, abanando o rabo para seus donos ocupados demais para lhes darem a devida atenção.

A natureza seguia seu curso sagrado, mesmo já tão maculada pelo desejo humano por poder. A vida seguia sendo vida e isso bastava, a despeito de todas as preocupações dela.

Nenhum outro ser fazia tantos planos ou cobrava-se tanto. Todos eles, todos, sem exceção, apenas viviam o dia. Um dia de cada vez. A ansiedade, assim, não fazia parte de sua natureza confiante e presente.

Mas como ela faria para dar conta de tudo aquilo a que se propusera? E que vergonhoso seria, se, por algum motivo, simplesmente não conseguisse bater suas metas... Recomeçar é embaraçoso, pensava. Vão achar que eu não me esforço o suficiente ou que sou uma fraude.

As maritacas seguiam sua discussão matinal, sem se preocupar com a opinião alheia. Mais tarde, triturariam alguns fios elétricos, também sem se preocupar.

Ela, no entanto, seguia seu exercício torturante de pré-ocupação. Ele ria, reconhecendo na mulher feita a menina que outrora se limitava a pedir-lhe o que quer que fosse e esperar confiante. E como era bonitinha quando juntava as duas mãozinhas para pedir... E como seu coração estava cheio de esperança e confiança cegas! O que aconteceu com aquela garotinha, afinal? A vida e suas demandas a fizeram esquecer de quem Sou? Sim, eu sei que ela continua pedindo, mas já não sinto nela a mesma entrega de antes... Tanto anseio por controle, tantas cobranças, tanta falta de fé...

Minha querida, eu não a meço pelos seus feitos, sejam eles grandiosos ou não. Não me importo sequer com seu peso ou aparência, muito menos com que os outros pensam a seu respeito. Eu quero, e esse sempre foi o meu desejo mais sincero, que você viva! Viva hoje, cada dia de cada vez.

Reorganize seus pensamentos, lembre-se da menininha que ainda vive aí dentro. Peça e confie. Abra mão da falsa sensação de controle e do prazer que ela lhe proporciona. Descanse! Eu estou no controle de tudo!

“Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?

Visto que vocês não podem sequer fazer uma coisa tão pequena, por que se preocupar com o restante?”  Lucas 12:25,26

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