Há quem diga que o amor é o tempero da vida. E há quem passe toda uma vida insossa. Há ainda quem, através de sua existência, tempere a vida daqueles que estão ao seu redor.
Hoje talvez a doçura do céu se veja um pouco agridoce, com uma pitadinha a mais de sal.
E com que prazer é que o Eterno recebe de suas mãos um generoso bocadinho para provar o sal. E constata, satisfeito, que cumpriu, através de sua vida, uma importantíssima missão, a de tornar esse mundo um lugar um pouco menos insosso e indiferente.
É um dia de reencontro de velhos amigos, sentados na grama do belíssimo jardim celestial, que lembra os jardins da praça, onde, por décadas, esteve com seu carrinho de pipoca e sua inconfundível simpatia. Um bom e generoso punhado de sal e uma muitíssimo mais generosa dose de simplicidade e gentileza.
Não sei se era o sabor inconfundível da pipoca, se era a boa dose de sal, o clima da praça, ou a alma doce do pipoqueiro, mas a cidade perdeu um pouco de seu encanto.
E eu já consigo vislumbrar a cena de sua chegada, o cheiro peculiar de pipoca no ar, a quentura e o sal salpicando as mãos do Altíssimo.
Ele o esperava ansiosamente, tal qual criança depois da obrigação da missa espera pelo brincar e pela pipoca de Seu Geraldo.
Quanto têm eles para conversar... Falar das lutas, dos desafios da vida, das alegrias. Tudo sábia e previamente idealizado pelo Pai. Mas com que satisfação é que Ele o ouve, entre um bocado e outro de pipoca.
Deleitam-se na companhia um do outro, na verdade, como sempre fizeram, mas agora, mais de pertinho. A conversa só é interrompida vez ou outra pela voz do pipoqueiro:
- O senhor aceita mais um pouquinho?
E o “pouquinho” era tão generoso que qualquer um ficaria absolutamente sem graça de recusar, que a gentileza é mesmo assim, gratuita e irrecusável.
Quem dera mais gente oferecesse seu “pouquinho” ao mundo, como fazia Seu Geraldo. Quem dera o mundo fosse um pouquinho mais temperado por sentimentos de grandeza maior, como: gentileza, solidariedade, compaixão...
É sal o que nos falta, o sal de Seu Geraldo, o mesmo sal a que Cristo faz referência, aquele que faz diferença num mundo aparentemente dominado pela vileza do torpor.
Que lembremo-nos com alegria do Sr. Geraldo, da sua pipoca, da sua generosidade, mas especialmente, do sal, e que não nos recusemos a provar um “pouquinho”, nem tão pouco não nos recusemos a oferecer um pouquinho. E que o “pouquinho” seja sempre bem generoso. Que a vida siga sendo-nos generosa e simples, porque é da simplicidade que nasce a alegria genuína, aquela que, de tão singela, cabia num saquinho de pipoca.
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