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Meio Ambiente

Sementeira no Ecoa: uma experiência literária movida pelas parcerias

O universo literário é amplo, complexo e, muitas vezes, restrito a suportes e espaços que ainda são de pouco acesso para a maior parte da população brasileira: os livros e as bibliotecas. É inegável a relevância das bibliotecas e seus acervos, no entanto, dada a nossa realidade histórica e social, o acesso pleno à leitura proficiente e para deleite ainda é privilégio de uma pequena parcela dos brasileiros, o que requer a realização de diferentes estratégias que contribuam para a difusão da produção literária e despertem o encantamento pela leitura.

A partir dessa reflexão, nasce em Bragança Paulista o Projeto “Sementeira”, como forma de intervir nessa realidade e contribuir para o seu processo de transformação a partir do diálogo entre literatura, cultura popular brasileira e universo das infâncias. O fio condutor desse trabalho, iniciado em 2024, é o livro infantil Tita e a Semente Griô, de autoria da idealizadora e produtora da iniciativa Jussara Reis, cuja história é protagonizada por uma pequena menina que, ao encontrar uma griô, guardiã dos saberes ancestrais, é convidada a conhecer as histórias de seu povo a partir da conexão com a terra. Imerso nessa temática, o projeto tem realizado diversas atividades artístico-culturais, como exposição de artes visuais interativa; rodas de leitura e conversa com a autora; e vivências com grupos culturais regionais e griôs de diferentes tradições populares brasileiras afro-ameríndias e da Região Bragantina. Embora o público prioritário sejam as crianças e os educadores, há uma busca constante em envolver sua rede mais ampla, como familiares e comunidade.

Obras interativas e roda de leitura e conversa com a autora de “Tita e a semente griô”, Jussara Reis, na temporada “Sementeira no Ecoa”

Fotos: Martín Zenorini

Em sua segunda edição, com o apoio da Política Nacional Aldir Blanc, a exposição Sementeira foi adaptada para uma versão itinerante e, assim, ocupar espaços descentralizados e de relevância histórica e comunitária, como associações sem fins lucrativos e escolas públicas, e promover um diálogo entre a produção artística-cultural e comunitária, valorizando o trabalho criativo dos educadores, das crianças e jovens.

Um dos parceiros desta edição é o Ecoa (Espaço de Convivência e Aprendizado), que recebeu a exposição na Unidade II - Parque Ecológico Tanque do Moinho. O Ecoa é uma associação sem fins lucrativos, fundada em 2007, que desenvolve ações socioeducativas para o público infantojuvenil em duas unidades, localizadas nas regiões da Penha e Tanque do Moinho, em Bragança Paulista. Na Unidade Parque Ecológico Tanque do Moinho, a coordenação pedagógica é realizada pela pedagoga Mariana Pinheiro, também responsável pela coprodução do Projeto Sementeira na instituição.

Durante o mês de abril, as oficinas da Unidade II - Parque Ecológico seguiram a temática do Pojeto Sementeira, aprofundando temas como ancestralidade, pertencimento, cultura popular, valorização da identidade e a própria semente, em seu sentido literal e figurado. Nas oficinas de Educação Física, as atividades relembraram a cultura popular das brincadeiras de antigamente, em que a rua era palco das manifestações das infâncias. Em Saúde & Bem-estar, produziram o Caderno da Ancestralidade, a partir da pesquisa de seus sobrenomes, e manusearam argila para confeccionar vasinhos, relembrando e valorizando a técnica ancestral da cerâmica. Nas oficinas de Dança, conheceram e experienciaram as danças brasileiras catira e carimbó, que culminaram em uma apresentação especial para os familiares e demais convidados no evento de encerramento do Projeto Sementeira. Nas oficinas Nossas Histórias, foram realizadas rodas de conversa sobre o sentimento de pertencimento ao território, conflito tal que a protagonista Tita vive também em sua cidade. As conversas resultaram em cartas aos gestores do município, com críticas, anseios, ideias e sugestões para os diversos bairros da cidade. Em Arte, as crianças e jovens criaram quadros utilizando sementes de açaí e, nas oficinas de Meio Ambiente, aprenderam sobre as diversas formas de dispersão natural das sementes e, como pássaros no Parque Ecológico Tanque do Moinho, brincaram de espalhar bombas de sementes nativas da Mata Atlântica. Nas oficinas de Educação Digital, iniciaram o PodCast Vozes do ECOA, em que criaram roteiros para entrevistas dos envolvidos na iniciativa.

Participação das educadoras, crianças e jovens no Projeto Árvore da Infância e apresentação do Carimbó, no encerramento da temporada da exposição “Sementeira no Ecoa”

Fotos: Ana Paula Rodrigues e Martín Zenorini

Durante um mês, as crianças e jovens estiveram imersos em uma exposição, surpreendendo a todos com atitudes de respeito e cuidado com as obras expostas. Ao observar as experiências que surgiram a partir da temporada “Sementeira no ECOA”, é possível mensurar somente o visível, o que foi dito ou expressado, mas não a profundidade e a totalidade do quanto essa experiência cultural reverberou em cada um.  

Buscando ampliar o diálogo com a comunidade, a temporada “Sementeira no Ecoa” manteve a exposição com visitação aberta e guiada para grupos escolares, instituições e coletivos. Nesse período, contou com a participação especial do Coletivo Socioambiental Bragança +, um grupo de voluntários que atua pela educação ambiental e difusão cultural, representado pela ativista Vivian Feres José, que realizou uma intervenção lúdica e interativa sobre a importância da biodiversidade local, a partir das aves de nossa região.

Despertando a curiosidade por meio de jogos como o “Labirinto da Coruja-buraqueira” e “Quem come o quê?”, e do painel interativo sobre as aves, as crianças e jovens foram incentivadas a compartilhar e ampliar seus conhecimentos sobre as diferentes espécies, considerando suas características físicas e comportamentais, bem como sua importância para a formação e manutenção de florestas por meio da dispersão de sementes; além de refletir sobre as principais ameaças e as diferentes formas de proteção. A saída ao ar livre para a observação de aves pelo Parque Ecológico foi uma oportunidade de colocar os conhecimentos em prática, proporcionando momentos especiais de conexão com a natureza. A vivência também destacou a “Coruja-buraqueira” e todo o processo de escolha da população como ave-símbolo de Bragança Paulista, o que provocou maior interesse das crianças e jovens em saber um pouco mais sobre essa espécie tão carismática. Ao final do encontro, o grupo foi convidado a estabelecer relações entre a vivência e a exposição Sementeira, que também valoriza as aves como importantes fontes de inspiração.

Vivência do Coletivo Socioambiental Bragança + sobre as aves da Região Bragantina na temporada “Sementeira no Ecoa”, por Vivian Feres

Fotos: Jussara Reis

Esse conjunto de atividades que extrapolam o campo específico da literatura contribuem para a formação de repertório dos leitores e de percepção da amplitude de inspirações e referências que uma obra pode carregar em si, assim como dos imaginários possíveis de serem criados a partir dela. É importante destacar que esse universo tão rico de experiências na temporada “Sementeira no Ecoa” só foi possível de ser realizado a partir de parcerias mediadas pelo desejo de construção de experiências significativas junto às crianças e aos jovens.

A natureza ensina: – somos todos semeadores.

Os griôs ensinam: – somos todos contadores de histórias.

Então, que possamos seguir semeando encontros para conhecer, compartilhar, tecer e conectar histórias!

Por Jussara Reis e Mariana Pinheiro

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