Sempre nutri especial carinho pela palavra “animado”, e o motivo é bem simples: estar ou ser animado significa estar pleno de alma, pleno de Deus. Daí minha aversão ao uso cada vez mais constante de seu antônimo “desanimado”, e minha aversão não se limita ao uso, mas à realidade triste que ele expressa. Andamos todos “desanimados”...
Claro que há dias e situações que simplesmente nos roubam a alegria, a paciência, parte da alma. Temos vivido dias difíceis, muitas incertezas, enormes irresponsabilidades, e é natural que não nos sintamos bem o tempo todo, pelo contrário, é coerente que estejamos um tanto quanto desanimados.
Mas quando esse sentimento veio até mim sob a forma de um áudio de uma menina de uns 12 anos, e havia tanta sinceridade nele que me constrangeu, fui atingida em cheio pela realidade que estão vivendo nossas crianças e adolescentes durante esta longa fase de pandemia.
A menina é minha aluna, e no áudio, me dizia que não tem sido como sempre foi, não tem conseguido fazer todas as atividades como sempre fez, e não as faz, não porque não queira ou porque não goste, mas porque anda muito, muito desanimada.
Ouvi seu áudio com a atenção que merecia, imaginei aquela menina na minha frente, seus trejeitos, sua forma única de dizer o que eu também queria dizer, e já sou adulta e sua professora: andamos todos desanimados!
A menina em questão não é má aluna, não, pelo contrário, conseguiu nota nove nas primeiras atividades entregues, e isso valida ainda mais seu desabafo.
No áudio, disse também que sua égua está doente, e que o fato de não poder montá-la a deixa muito triste, o que somado a toda essa situação que vivemos, mais a distância dos amigos, da escola e do dia-a-dia como ele costumava ser, tem lhe causado muita “desanimação”, muita mesmo, inclusive para realizar as atividades escolares.
Eu a compreendo, de verdade, e apesar de ter respondido ao seu áudio com ares positivos, na tentativa de “animá-la”, também tenho tido meus dias de “desanimação”. Quem é que não os tem tido?
A despeito disso, sou imensamente grata por meus alunos, ainda que distantes. Sou grata pelo tanto que aprendo com eles todos os dias, apesar dessa distância.
Com essa menina, que nem sequer tive a oportunidade de conhecer pessoalmente ainda, aprendi um pouco sobre honestidade, amor e neologismos. Simplesmente amei o termo “desanimação”, amei saber de seu amor por sua égua, de sua preocupação com as atividades escolares, amei ouvir sua voz, seu sotaque e conectar-me com ela, reconhecendo em seu relato parte do que também sinto. Eles (meus alunos) sempre me ajudam na tarefa de me reconhecer e ser cada vez mais humana.
Espero mesmo que essa “desanimação” toda em breve dê lugar a muita energia, alegria, sorrisos, abraços e vida! Que sua égua melhore, que ela possa novamente montá-la. Que nossa alma retome seu lugar, que Ele nos preencha novamente com seu fôlego de vida... Na verdade, ele sempre esteve aqui, só precisamos reaprender a reconhecê-lo e respirar fundo!
0 Comentários