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SUB-VERSÃO

SOZINHOS?

É Páscoa, mas há um vírus mortal lá fora e estou enclausurada há um bom tempo já desde que ele surgiu. Sinto-me estranhamente presa ao espaço de minha casa e de meus pensamentos. As notícias na tevê não são das melhores, o mundo está irreconhecível, de repente é como se todos, todos nós, brancos, negros, pobres, ricos fôssemos lembrados de nossa fragilidade. Não nos vemos mais como antes, agora, só um leve reflexo do que fomos, encoberto por uma máscara um tanto diferente daquelas que muitos já costumavam usar.

Estamos vulneráveis, de fato, sempre fomos, mas nossa presunção não nos permitia nos enxergar assim. Cristo também estava vulnerável naquela noite de sexta-feira, completamente sozinho, abandonado pelo Pai à sorte de ser seu filho redentor, entregue aos homens maus, entregue à violência crudelíssima de que são capazes os homens maus quando travestidos de gente do bem, absolutamente vulnerável.

O Deus feito homem, encantadoramente humano, estava agora entregue à morte. E nós também não estamos?

Naquela sexta-feira horrenda, o amor insano de um Deus apaixonado entregou seu filho único a um sacrifício tenebroso.

Cristo, banhado em sangue, expunha aos homens a fragilidade de ser Deus. E suplicava, suplicava ao Pai que não o abandonasse. Cristo estava sozinho.

Francisco, o Papa, também esteve sozinho dias atrás, numa das cenas mais tétricas e visitadas da internet. O Papa, maior autoridade da Igreja Católica, sozinho na Praça São Pedro. A personificação do Cristo? Não, eu não diria isso. Francisco é apenas um de seus discípulos, talvez um dos mais genuínos pelo que tenho acompanhado de sua trajetória pessoal, mas um discípulo. Pessoal, sim, porque é nossa trajetória pessoal que nos autentica como seguidores do Nazareno e não quaisquer títulos atribuídos por homens igualmente pecadores.

Cristo, o Deus encarnado viu-se sozinho diante da dor de fazer-se morte. Francisco, não, Francisco definitivamente não estava sozinho. Francisco nunca esteve sozinho. O Cristo do outro Francisco, o de Assis, aquele em quem esse último se inspirou, era Ele quem o acompanhava. Foi Ele quem sempre o acompanhou. Nós também definitivamente, não estamos sozinhos!

O mesmo Cristo torturado e ressurreto por amor, é Ele quem ainda nos acompanha, tal qual fazia com o santo outrora, em suas visitas aos enfermos e toda a escória de Assis.

Somos nós hoje nossa própria escória, a razão, e o motivo de todo o mal. Deus, não, Deus é bom.

Tivéssemos aprendido com Francisco a respeitar nossa Irmã Natureza, nossa própria humanidade e os limites que ela nos impõe, talvez não assistíssemos a essa cena... Francisco, o Papa, sozinho na Praça São Pedro.

Tivéssemos nós escolhido viver a vida imensamente rica e abundante de Francisco, em detrimento à nossa eterna ganância e busca por parecer melhores do que realmente somos, talvez não estivéssemos hoje chorando nossos mortos. Nossos sim, porque, e Francisco nos ensinou isso também, somos todos, todos irmãos.

Mas não há espaço para um “talvez” na história da humanidade. Temos apenas o hoje, e era justamente isso que Francisco tentava ensinar.

Talvez finalmente tenhamos aprendido, talvez...

Feliz Páscoa (em casa)!

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