Acordei às 6 da manhã. Tinha de garantir que seria uma das primeiras na fila. Aliás, só a ideia de existir uma fila já me metia certo medo.
Em plena pandemia, ter de ir realizar exames é meio incômodo. Eu fico medindo a distância entre uma pessoa e outra, reparando, feito criança curiosa e intrometida, se todos estão com narizes e bocas devidamente cobertos.
Praguejo porque não sou a primeira, já há uma senhora na minha frente. Muito simpática, por sinal, dessa gente, que agora descobrimos, sabe sorrir com os olhos.
Meus olhões estão como sempre inquietos, a tudo atentos, talvez na tentativa pueril de desviar meus pensamentos da ansiedade por um resultado.
Sete horas. Ninguém vem abrir o portão. Ligam. O mocinho chega. Chave errada. Volta buscar a certa. Mais espera. O frio dessa manhã de inverno corta a pele, aumentando consideravelmente as dores.
O mocinho retorna, treme, mas encaixa a chave. Entramos, senha, controle de quantidade de pessoas. Painel chamando.
Sento-me na cadeira em frente à recepcionista, e nem sei se ela nota, mas instintivamente volto a ser Aninha e dou uns leves girinhos na cadeira.
Ué, cadeira que gira não é pra isso mesmo?
Minha mãe sempre conta que ficava doida quando me levava ao consultório do Dr. Maurício e eu rodopiava na cadeira...
O médico, um ser humano ímpar, nem se incomodava e ainda aconselhava minha mãe a deixar-me.
Volto a ser Ana, e respondo com a clareza que a máscara permite às perguntas da moça.
Nunca deixei de ser Aninha. Continuo dando girinhos inocentes na cadeira e com a mesma coragem pra agulha. Gosto de acompanhá-la com os olhos, enquanto perfura minha pele e atinge a veia em busca do sangue de que precisamos.
Tem preferência de braço? Pergunta a ágil enfermeira.
Não, o que for melhor pra você. E sorrio atrás da máscara. Pés de galinha se formam ao redor de meus olhos, delatando o meu sorrir.
Ana e Aninha de alguma forma estão apreensivas. As duas, orgulhosas que são, tentam não deixar transparecer, mas há sim uma certa preocupação.
É quando Ana se lembra de algo muito precioso que ouviu certa vez de alguém que já lhe é muito caro.
“Tudo aquilo que vem, vem para o bem”. E sorri.
Agora, já não importam mais os pés de galinha, nem a imprudência de girar na cadeira, nem tampouco qualquer resultado.
Afinal, tudo, tudo o que vem até nós, resulta em nosso bem.
Gratidão!
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