Tenho olhos famintos desde criança. Há quem diga, inclusive, que sejam muito grandes, deve ser tamanha a necessidade que sinto de observar tudo. Sou assim desde que me conheço por gente, não pretendo mudar. Acho mesmo que o mundo e suas gentes são um espetáculo bonito demais para ser ignorado ou substituído pela cegueira de nossos dias.
E por que gosto de observar, estava eu aguardando na sala de espera de um consultório médico, onde meu pai passaria por uma consulta, por sinal, há muito esperada e reagendada, quando, mais uma vez, me entreguei à delícia de observar.
Esperas podem ser tediosas, é verdade, mas não muito. Não, quando se observa.
Havia na sala, devidamente afastadas por cadeiras vagas, com avisos para não serem ocupadas e aquela faixa que se usa para isolar áreas onde houve crimes, muitas pessoas, mais do que eu imaginava que houvesse. Dentre elas, algumas me chamaram a atenção. A primeira delas, uma jovem mãe, moça muito bonita, com um tom de pele escuro, tão lindo como nunca havia visto, acompanhada de seu pequeno, a quem a máscara estampada de super-heróis escondia o sorriso.
Havia, ainda, duas senhoras que chegaram pouco depois de nós, acompanhadas por uma mulher mais jovem, com quem troquei algumas palavras, quando ela se queixava da demora da espera. A primeira, levava presa à alça do sutiã um pedaço de papel higiênico que, vez por outra, delicadamente sacava de lá para secar os olhos, que não sei por qual razão lacrimejavam muito. Do seu lado, a outra senhora, não sei se sua parente, seriam irmãs? Não sei, sei que essa última parecia ser um pouco mais jovem que a outra e tinha olhos secos e não levava nenhum papel higiênico ou, se o fazia, não se fizera notar. O marido da moça que as acompanhava ia e voltava, inquieto, como se quisesse se livrar logo daquilo.
Havia uma lâmpada piscando na sala e eu estava realmente incomodada com aquilo. Para mim, isso é uma espécie de tortura. Imagino se não seria assim também para a jovem recepcionista que, afinal, passava grande parte do dia ali naquele ambiente.
Mas, nem a luz intermitente, nem as distrações do pensamento me fizeram deixar passar despercebida a mulher que adentrara agora. Nitidamente atordoada. Cansada. Preocupada. Forte. Levava no colo o filho menor e a mochila e a bolsa. O maiorzinho conduzia-o ao seu lado, sem tocar-lhe, já que as mãos estavam ocupadas, como só a autoridade de uma mãe é capaz de fazer.
Uma cadeira vaga, senta-se o maior com o pequeno, que agora a mãe transfere para o colo. Abre a mochila, frasco e seringa em mãos, de primeira, com a precisão de um “sniper”, com uma das mãos ela puxa o líquido na quantia exata, com a outra aperta literalmente as bochechas do garoto, a fim de que o elixir não se perca, que a cura não se perca, que o dinheiro gasto no remédio não se perca. Bochechas esmagadas, alguns gritinhos de contestação, remédio goela abaixo. Pronto. Às vezes, o amor precisa ser forte, na maioria delas, ele é apenas coragem. Particularmente nas mães, ele parece ser uma mistura fascinante dessas duas qualidades.
Dirijo meu olhar para fora, uma moça passa correndo, atrasada, vestindo o uniforme da loja. Deus queira que ela tenha tido uma noite tão boa, que não conseguiu levantar a tempo. Deus queira que dê tempo de bater o ponto. Por que será que se atrasou?
O médico também está atrasado, diga-se de passagem... Mais tempo para mais observações. A mulher com os dois meninos perde o assento. Com máscara e tudo sinalizo para que ocupe o meu lugar e levantando-me, vou para mais perto da porta, melhor pra respirar mesmo.
O garotinho está impaciente, eu também estou, e olha que nem tomei nenhum antibiótico daqueles com seringa, são os piores. Se tentam mudar-lhe o gosto com aqueles artificiais sabores de morango então, ficam ainda piores, ganham gosto de remédio de morango, morango estragado, morango de laboratório.
Quer a todo custo tirar a máscara, ao que a mãe, aquela, exausta, preocupada, forte, diz: “-Não, não pode tirar a máscara, não. Se não, vem um policial aqui e fala assim: Aquele menino ali tá sem máscara, vamos prender ele. E levam meu nenê embora”.
E sorri.
O amor é assim mesmo, nos mesmos músculos tensionados pela preocupação é que encontra forças para a frouxidão bendita do sorriso.
O amor, o amor verdadeiro e insano de uma mãe é até mesmo capaz de ameaças como essa, quando, na verdade, tudo o que mais deseja é que seu pequeno nunca se afaste dela. Talvez aquela mãe, naquele dia, desejasse até mesmo que ele nunca tivesse saído dela porque, assim, o protegeria das agressões do mundo...
“Você sabia?” – ela continua. Ao que o pequeno responde: “ -Num “babia”, não...”
E ela sorri.
Do meu lado, meu pai espera, exames em mãos, todos juntos por um clipe e, sobre todos eles, uma folha de sulfite com a letra de minha mãe. Ela anotara todos os medicamentos de que, atualmente, ele faz uso, e dos que já fizera também.
O amor anota o que o outro porventura esquecerá, e prende com um clipe bem à vista, para que nenhuma informação relevante se perca.
O amor é um exercício diligente e, por isso mesmo, assustador, quase tão assustador quanto a ameaça da polícia.
“Gabriel!” - chama o pediatra. E o menininho sai do colo forte da mãe exausta, preocupada e amorosa, acenando-me um tchau. Retribuo o aceno, sorrio com os olhos, também me irrita essa máscara. E ele some consultório adentro. Seu irmão, eu, meu pai e os demais continuamos lá, em nossa espera. Eu continuo meu exercício de observar, afinal, o amor está em toda parte.
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