São Paulo, 19 de setembro de 2020
Querido Julinho,
Julinho, senta um pouco, vai. Só o tempo de ler essa carta, prometo-lhe. Júlio, eu estou falando com você, vamos! Senta, tira essa máscara, que você sabe muito bem que somos íntimos o suficiente para conversarmos assim, cara a cara. Tire a máscara, sirva-se um pouco d’água. É, Julinho, pra você mesmo. Está tão acostumado a servir aos outros, que o fato de servir-se te surpreende... Ah, meu menino muito querido!
Você continua o mesmo menino, sabia? E isso não é confete, não, que você sabe que não me presto a esse tipo de coisas. O mesmo menino, Júlio! Teimoso! Ainda não se serviu a água, que eu sei. Vamos, sirva-se, descanse, enquanto lhe ofereço algumas palavras.
Sabe, querido, eu tenho te observado. Você é um dos meus preferidos! Sim, eu tenho predileção por algumas pessoas. O que que é? Querem ser melhores que eu? Ah, por favor...
Tenho predileção por gente que tem predileção pelos meus, não é verdade, Julinho? Ah... E você os conhece tão bem!
Menino inteligente que sempre foi, entendeu direitinho minha mensagem. Na verdade, sempre houve quem a entendesse, ao longo desse espaço que vocês convencionaram chamar tempo, mas... E é isso que torna as coisas difíceis entre nós, não a praticam, o que para mim é exatamente o mesmo que fazer-se de desentendido. Você não, você entendeu de forma cabal.
Entendeu e pratica, que é o mesmo que entender de fato. Quanto amor, Julinho, distribuído graciosamente entre os menos favorecidos, os sem-teto, a quem você oferece algum conforto e dignidade, aos famintos, aos abandonados, aos meus muito amados homossexuais, a quem a família passou a odiar para atender ao anseio de uma sociedade absolutamente hipócrita, que eu e você sabemos muito bem beira à podridão, aos adictos, aos alcoólatras, aos transexuais, às prostitutas, aos “nóias” – não é assim que os ditos “homens de bem” os chamam? Meus amados filhos, Júlio! Seus irmãos amados!
Sonho com o dia em que estaremos todos novamente reunidos, na mesa farta que preparei a vocês. Mas enquanto esse dia não chega, regozijo-me com o banquete que você lhes oferece diariamente, porque você, Júlio, entendeu que todo homem deve viver de maneira digna, que a justiça é meu baluarte e que meu amor é insano!
Não adianta balançar a cabeça, e, modesto como é, não ouse esconder o rosto marcado pelo tempo que nos une, daquele que lhe ama insanamente.
Eu estou contigo todos os dias, Júlio, você bem o sabe. No sorriso sem jeito de quem se vê atendido em sua necessidade mais básica, nos gritos alucinados do irmão em crise, no batom vermelho lindíssimo da prostituta, no olhar enfurecido do homem que já esqueceu-se de como é ter alguma esperança, no riso solto da criança, que, criança que é, ainda encara a dureza do mundo com sua poesia. Eu estou no pão que você reparte, no cansaço do seu corpo depois de mais um dia... Eu estou impregnado na sua alma, a ponto de não me reconhecer longe dela.
Sendo assim, meu menino... Descanse. Meu amor lhe é suficiente e esses chamados “homens de bem”, ah, Júlio, eu estou a ponto de regurgitá-los de minha boca!
Esses malditos “homens de bem” subverteram minha boa-nova em maldição, continuam adorando ao poder, tirando da boca do menor de seus irmãos para satisfazer sua insaciável ganância.
Esses bastardos “homens de bem” continuam comercializando minha verdade e eu os chicotearia novamente, e ainda mais, à porta de seus templos, seus, sim, porque eu jamais habitaria ali.
O fato é que esses “homens de bem” não suportam o bem, meu amado. Por isso, você e seus irmãos são vistos como uma ameaça, um empecilho à realização de seus intentos perversos.
Quisera eu que todos tivessem essa compreensão clara do meu reino como você a tem. Essa simplicidade altruísta, essa coragem absurda que só tem morada nos corações mais amorosos.
Quisera eu, meu Julinho, “padre de idade”, como alguns te chamam, e eu rio, porque ainda o vejo como o menino que foi... Quisera eu poder contar com o auxílio de apenas mais alguns poucos Júlios... Ah, a Terra seria um lugar bem mais alegre!
Obrigado, Júlio, meu Julinho! Obrigado!
Siga de cabeça erguida o plano que eu mesmo tracei para você. Eu estou contigo!
Com amor incondicional,
Ele.
(Texto em apoio ao Padre Júlio Lancelotti, que recentemente vem sofrendo ameaças por parte de políticos, por conta de seu trabalho junto aos moradores de rua da cidade de São Paulo).
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