João nasceu menino forte, graúdo, tanto que pôs a mãe de repouso antes do tempo. Seu corpo magro carregava agora um meninão, e porque Ele é misericordioso para com os miseráveis, João nasceu com cara de filho de rico, não fosse pela cor da pele, é claro. Menino feito, diziam as vizinhas à sua mãe, ele nasceu menino feito, Isabel!
Antes fosse, era o que pensava sua mãe, enquanto se dividia entre a alegria de conceber e a responsabilidade e a dureza de se saber sozinha para sustentá-lo.
Ela conseguiu, aos trancos e barrancos, conseguiu. João logo tornou-se um adolescente alto, bonito, esperto que só ele. Ia bem na escola e Isabel nunca que escutou uma só reclamação do menino. Fazia sucesso com as meninas da comunidade. Dava confiança, não. Queria era ser padre, e nem Isabel, sua mãe, nem ninguém entendia de onde é que aquele menino tinha tirado essa ideia: ser padre.
Sempre que perguntado sobre o futuro, era isso que ele respondia muito séria e conscientemente.
A estranheza de todos se dava pelo fato de quase ninguém ali ser religioso. Claro, Isabel tinha sua fé, fazia suas orações, aliás, diz ela que foi graças a elas que conseguiu chegar ao fim da gravidez complicada que teve. Mas religioso, religioso como o menino dizia que seria, ninguém era não.
Com o primeiro trocado que ganhou fazendo seus primeiros bicos, comprou uma bíblia, e desde então, não largava dela. Leu-a de cabo a rabo nem sei quantas vezes, sabia versículos de cor, afinal, um padre deve saber, não é mesmo?
“Olha lá o padreco!”, gritavam os amigos em tom de chacota quando o viam se aproximando. E as meninas queriam morrer só de pensar na possibilidade daquilo vir a ser verdade.
“Que desperdício!”, dizia Ritinha, a morena mais bonita e mais fogosa da comunidade.
João, no entanto, preferia Cristo.
João praguejou contra Cristo, João queimou a Bíblia e jogou fora o crucifixo que carregava ao pescoço, quando a mãe morreu.
João não foi atrás de Ritinha. João agora preferia a cachaça. Ela o consolara quando da morte de sua mãe, ela o fizera esquecer por alguns instantes sua miséria, a miséria que tinha levado sua mãe, morta aos 39 anos por um câncer e por falta de tratamento adequado.
João bebia, praguejava e esquecia. E era só repetir essa rotina, assim mesmo, dia após dia. Viver anestesiado, já que a vida é assim tão dolorida quando se é preto, pobre e favelado.
Mas não demorou e a rotina de bebedeiras de João tirou-lhe o trabalho, depois o barraco onde vivera por anos na companhia da mãe. Agora, João morava na rua.
O menino feito, inteligente e bonito, era agora invisível como são todos os que por variados motivos fazem das ruas sua moradia.
Não demorou também para as condições precárias da rua levarem-lhe parte da beleza. Demorou menos ainda para que sua fé, antes inabalável, fosse substituída por uma desesperança tão grande e aguda que lhe fazia doerem os ossos. Nem se lembrava mais de que um dia almejara ser padre. Relações cortadas com o Altíssimo, como ele costumava dizer. “Ele fica lá no alto, enquanto a gente sofre aqui...”
Mas porque estava chegando o Natal e as ruas já se enchiam de gente e alguma alegria, mesmo que muitas vezes motivadas pelo consumismo, João resolveu dar uma chance a Ele. E numa noite daquelas, depois de algumas garrafinhas de corote, ele o desafiou: “É, você aí mesmo! Tá se escondendo por quê?”
Os outros moradores de rua acordaram com seus berros e pareciam não entender o que se passava. Com quem João estava falando, afinal?
“Eu acreditei em você minha vida inteira, eu queria ser padre. Padre! E o que você fez? Levou minha mãe, a única coisa boa que eu tinha nesse mundo miserável!”.
“Você fica aí em cima, e nem se lembra da gente aqui embaixo! Acho que você nem existe! Mas se você existe, e eu tô te desafiando... Se você existe, eu quero um sinal. Eu exijo um sinal! Tô cansado dessa vida de merda, vai, me dá uma sinal!”.
Seu Geraldo gargalhava tanto, que chacoalhava a pequena Mili, sua cachorrinha com o balanço do corpo. Outros acompanhavam seriamente o diálogo entre João e o Altíssimo. Prostitutas reclamavam que o escândalo estava afastando clientes. Crianças dormiam, indiferentes à cena.
Exausto da discussão, naquela noite, João chorou e adormeceu. E foi um sono pesado, muito diferente dos outros. Dormir na rua não é fácil, você demora a se habituar. Mas naquela noite, João dormiu o sono que dormia em sua infância, quando ainda era só um menino cheio de sonhos, e velado pela bondade corajosa de sua mãe.
Sonhou com a mãe, cozinhando no barraco em que vivera toda sua infância. Podia até mesmo sentir o cheiro da comida. Era como sentir a felicidade de novo.
No dia seguinte, um burburinho só entre os colegas da rua. Todos estavam curiosos sobre o tal sinal que João exigira na noite anterior.
João demorou a despertar, não sei se por conta da bebedeira ou se pelo desejo de permanecer naquele sonho por mais tempo. Quando finalmente se levantou, havia um homem esperando-o com uma caneca de café e um pedaço de panetone. Assustado, ele perguntou: - O senhor é padre?
Ao que o senhor cujo semblante marcado pelo tempo e pela coragem de ser doce, respondeu: - Sou sim, meu filho! Vim trazer pra você o café de Natal.
João desmanchou-se em lágrimas e, caído aos pés daquele homem divinamente humano, levantou a cabeça para o céu e agradeceu, não pelo café, nem pelo pedaço de panetone, muito menos pelo natal, agradeceu porque finalmente recebera seu sinal.
E porque é Natal desde que Deus se fez carne entre nós, e habitou entre os miseráveis e esquecidos, e foi deles amigo e companheiro, sofrendo junto deles os males de que eles sofriam, nós também temos nosso sinal.
Ele não se esqueceu de nós e não está lá em cima, inacessível, mas em nosso meio!
0 Comentários