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SUB-VERSÃO

Uma prece

Hoje eu pensei em pedir para Deus cuidar de nós. Pensei em dizer que sou criança ainda e não sei muito bem como lidar com tanto caos. Pensei em argumentar (isso já é coisa de adulto) que estamos tentando melhorar, estamos sim, ou pelo menos foi isso o que pensei quando do início da pandemia.

Pensei em dizer também que ando muito cansada, e não se trata de um cansaço físico, daqueles que se ameniza com descanso e um chazinho. Não, eu queria mesmo dizer para ele, e ainda não sei como, que ando sofrendo de um cansaço quase que espiritual. Não consigo mais assistir à TV, razão pela qual inclusive não ando comentando os últimos acontecimentos em meus textos. Há notícias que doem em mim, literalmente.

Pensei em confessar para ele que de vez em quando sinto-me tomada por uma espécie de angústia, um troço no meio do peito, uma dor que não dói, mas é suficiente para dilacerar a alma. Pensei também que podia ser falta de fé... Bobagem! O mundo é que anda muito difícil mesmo, e não vejo como simplesmente aceitar tudo isso com otimismo e naturalidade.

Pensei muito, muito mesmo nas nossas crianças, e em como é que ele podia ter se esquecido delas... Nada, ele não esquece, nós é que nos esquecemos de nossa essência e por isso nos tornamos seus algozes.

Pensei em pedir a cura para esse vírus maldito, pensei em pedir o impeachment do presidente... E de pensar tanto, pensei também que não devia encher o Altíssimo com esse último pedido. Talvez seja a oportunidade do povo aprender a escolher melhor, mas é mesmo lamentável, é triste, é revoltante, que para isso tantos tenham que pagar, e até mesmo com a vida.

Será que ele ainda está me ouvindo? Deve ter assuntos mais urgentes e complexos com os quais se preocupar. E foi aí que pensei “estou pedindo demais...” 

E então, resolvi agradecer. E agradeci, primeiro pela vida, depois pelo pão e pelo teto, pelo trabalho, pela saúde, e por ainda sentir. Agradeci pela poesia que me mantém humana, pela dor que me faz forte, pela esperança que ainda existe e insiste minguadinha em brotar dentro de mim sempre e quantas vezes forem necessárias. Afinal, eu já a matei tantas vezes, boba que sou.

E de agradecer, lembrei-me também dos pardaizinhos, que religiosamente nos visitam todo dia aqui em casa: café da manhã, almoço, café da tarde, jantar. São arautos dele, e acho mesmo que ele deve ocupar o pensamento é com eles, com esses serzinhos tão simples, tão agradecidos, tão dependentes do pão, do pão nosso de cada dia.

Amém.

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