Na última semana, nos dias 22, 23 e 24, foi realizado o V Cine Debate, no Napa (Núcleo de Apoio ao Professor e ao Aluno). O evento reuniu cerca de 100 pessoas por noite, que após uma sessão de cinema, participaram de discussões, junto aos convidados que compuseram a mesa, sobre formas de se pensar e agir diferente buscando a transformação da sociedade, visando a um mundo mais justo, solidário, sustentável e feliz.
Na primeira noite de discussões, os participantes assistiram ao filme de Luiz Bologneze,”Uma história de amor e fúria”, e os convidados Teresa Montero Otondo, jornalista e pesquisadora, e Osni Tadeu Dias, jornalista e coordenador do curso de Jornalismo da Faat (Faculdades Atibaia), conversaram com a plateia sobre “quem são nossos heróis?”, numa verdadeira aula de história a partir da versão dos vencidos e dos que nunca desistiram de lutar.
Teresa explicou que o filme trata-se de uma animação tradicional clássica feita com o uso de papel e lápis. Um professor de história e um antropólogo ajudaram a escolher a periodização da obra, que este ano já foi premiada na França e levou seis anos para ficar pronta. Ana Caiado criou a ambientação do longa-metragem e as construções imagéticas refletem as quatro estações do ano e os quatro elementos: terra, água, ar e fogo.
A jornalista mencionou que alguns críticos apontaram a obra como plana e simplista, mas destacou que há casos em que a crítica é meramente ideológica e que, nesses casos, ela também é plana e simplista. Na opinião de Teresa, trata-se de um filme que merece ser assistido muitas vezes, pelo seu próprio valor artístico e principalmente por nos levar a perceber que cada um tem responsabilidades sobre sua história e a história coletiva de seu país. Para ela o filme ajuda a pensar no futuro, mostra que as coisas não são como são porque precisam ser assim, e que é preciso seguir em frente e olhar para trás para corrigir o que for preciso, afinal, como insiste o narrador do filme “Viver sem conhecer a história é como viver no escuro”.
De acordo com Teresa é preciso pensar diferente e para vencer acionar outras armas: “Ouvir, dialogar e negociar. Essas são as armas que precisamos para construir um mundo melhor”, ancorado em valores e não em derramamento de sangue e uso da força.
Osni Tadeu questionou os participantes indagando-os: “De que lado estamos, do opressor ou do oprimido?”. Conforme o jornalista, “todos os dias lutamos por alguma coisa. Tem gente que luta por um Playstation, outros pelo último i-Phone, outros ainda por um tênis. E você anda lutando pelo quê?”.
Para o coordenador de jornalismo da Faat, para ser e pensar diferente, basta não ser igual. Não é preciso, pintar o cabelo, usar uma roupa da moda, mas sim pensar por si próprio, tomar atitudes que façam diferença, e não seguir a agenda pautada pela mídia, que atualmente tem o poder de decidir sobre o que os brasileiros vão conversar durante a semana. “Se for para postar no face, coloque lá uma discussão bacana, e não fique apenas curtindo, enquanto está sendo monitorado”.
A programação da Tv Cultura, direitos indígenas e veículos de comunicação que não devem servir de referência a ninguém também fizeram parte das explanações de Osni Tadeu Dias.
MÍDIA NINJA
A segunda noite de debates contou com a presença de Gabriel Ruiz, membro da Mídia NINJA (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), integrante do Fora do Eixo e editor do site Toque no Brasil; e do filósofo, cineclubista, responsável pelo projeto youtube.com/memorias bragantinas, André Luís La Salvia; quando foram exibidos os filmes Lutas.doc “Guerra sem fim”, “Sob R$ 0,20”, Reportagem Mídia NINJA e Manifestações em Bragança Paulista.
Dando continuidade aos questionamentos sobre como pensar diferente, os participantes debateram sobre como a mídia constrói as versões da história. Gabriel Ruiz explicou que a Mídia NINJA, veículo alternativo que se apropria da internet e sua velocidade para divulgar os fatos, não surgiu com as manifestações que tomaram conta das ruas do país em junho, quando ganhou notoriedade, mas, sim, em um congresso na Tunízia.
De acordo com Gabriel, o midiativismo criou novos paradigmas e desencadeou uma crise de credibilidade ao jornalismo brasileiro, que apesar de estar ligado a empresas fortes e com aparatos caríssimos não pode narrar os fatos com independência e trazer ao público furos de reportagem, com a rapidez e liberdade da narrativa proporcionada pela mídia livre.
Questionado pela plateia sobre como analisa o resultado das manifestações e protestos realizados em junho, Gabriel Ruiz respondeu que vê com muitos bons olhos, afinal elas trouxeram à tona discussões sobre política, assunto que até então, muitos brasileiros diziam que não se discutia. “Graças aos protestos, subimos a régua do debate político.”
Além disso, de acordo com Gabriel, nunca, até então, havia se visto tantas discussões sobre comunicação no país. Ele explicou, ainda, que a partir dos protestos, a Mídia NINJA passou a trabalhar em parceria com a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). “A Mídia NINJA filma e a OAB colhe os depoimentos e encaminha as denúncias.”
ECOSOFIA
André Luís la Salvia trouxe como proposta de pensar diferente o conceito de Ecosofia, do filósofo Félix Guattari. Ecosofia é um termo proposto por Guattari, que traduz a necessidade do homem de repensar suas práticas, repensar sua postura e ações no meio em que vive. O filósofo propõe o questionamento do instituído, a indagação das aparências, o filosofar o mundo com a consciência de que foi inventado e que, por isso, pode e deve ser reinventado num outro sentido mais humano e menos cruel.
André la Salvia citando o filósofo francês Gilles Deleuze, disse que os publicitários são os sofistas contemporâneos, enquanto o filósofo cria um conceito, como o de Ecosofia, por exemplo, o publicitário cria um slogan, que arrebata multidões, como “Skol, a cerveja que desce redondo.” O cineclubista e professor da EEMABA, propõe que o ser humano precisa reinventar sua existência. “Precisamos reinventar a subjetividade, nos tornar singulares, fazer de nossa vida uma obra de arte, cada vez mais solidários e diferentes”.
Ele ainda indicou a leitura do livro “As três ecologias”, de Félix Guattari, que está disponível na internet e pode ser baixado, além do livro “O Anti-Édipo”, de Félix Guattari e Gilles Deleuze, o primeiro para maior compreensão do conceito de Ecosofia, e o segundo para entender as diferenças entre identidade e singularidade.
MANEIRAS DE PENSAR E AGIR DIFERENTE
No último encontro do V Cine Debate, formaram a mesa o engenheiro agrônomo Aurélio Carpalhoso de Abreu, e a organizadora do evento, Maria Cristina Muñoz Franco, bióloga, responsável pela Sala Verde Pindorama, professora da Fesb, mestranda em educação e coordenadora do Coletivo Socioambiental de Bragança Paulista. Na noite de quinta-feira, foram exibidos os filmes “O homem que plantava árvores”, “A história das soluções” e “Iniciativas de pensar diferente em Bragança Paulista”.
Além dos debatedores, especialistas em Fruticultura Orgânica e membros do Coletivo também tiveram participação importante no evento, que discutiu entre outros assuntos: “O que faço com o que estão fazendo comigo?”
De acordo com o engenheiro Aurélio Carpalhoso, em alusão ao filme “O homem que plantava árvores, já existem atualmente técnicas de corredores ambientais que poderiam reflorestar o nordeste brasileiro, mas a quem isso interessaria? As pessoas atualmente só pensam em fazer as coisas pensando nos lucros, ou seja, “O que vou ganhar com isso?”, e é preciso mudar essa forma de pensar se o que se quer é mudar o mundo para melhor.
Maria Cristina Muñoz Franco, ao discutir o filme “A história das soluções”, afirmou que “às vezes estamos pensando diferente, mas jogando o mesmo jogo, o jogo da economia da sociedade de consumo, que tem como objetivo o ter, e cada vez mais”. Conforme apontou, é preciso que as pessoas se perguntem: quero o mais ou o melhor? Em referência a um mundo melhor.
Ao ser indagada pela plateia sobre qual o maior problema ligado ao meio ambiente de Bragança Paulista atualmente, a pesquisadora respondeu que é a questão da outorga do uso de água do Rio Jaguari, que abastece a cidade, pela Sabesp para abastecer o sistema Cantareira. Conforme explicou Maria Cristina, “vivemos em Bragança uma transposição de água da Bacia PCJ para a Bacia Tietê. Todos os dias 15 mm³ de água do Jaguari entram no sistema Cantareira, enquanto apenas 2mm³ chegam para abastecer o município”.
De acordo com Maria Cristina, a cidade não recebe royalties pelo serviço e fica apenas com o ônus, uma vez que a água que abastece o munícipio é muito mais poluída, visto que a poluição numa quantidade menor de água é bem maior do que quando o rio segue caudaloso, uma vez que com pouca água não consegue se depurar. Ela avaliou a situação como grave e que trará prejuízos inestimáveis a médio e longo prazo.
Ainda na noite de quinta-feira, membros do Coletivo Socioambiental apresentaram maneiras e sugestões para pensar e agir diferente, contrariando as regras do capitalismo, entre elas adoção de cães abandonados, ao invés da compra de animais de raça; voltar a consumir legumes e hortaliças que podem ser obtidos no próprio quintal, como serralha, caramuela, orapronóbis, um vegetal rico em ferro, que ajuda a curar anemias das mais graves, beldroega, tansagem e caruru; aderir a campanha “Segunda sem Carne”, que consiste em passar um dia da semana sem comer carne; adotar o Movimento Km 0, ou seja, procurar consumir frutas, verduras e legumes diretamente do produtor que esteja o mais próximo possível; construir telhados verdes, que ajudam na absorção de água das chuvas, além de proporcionar um ambiente agradável à residência, seja no frio ou no calor.
Outras questões ainda foram debatidas, como o fracasso na eliminação das sacolinhas plásticas dos supermercados, desenvolvimento sustentável versus sociedade sustentável, e programação da Web TV Bragança.
O evento foi aprovado e muito aplaudido pelos participantes.
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