“Nosso dia vai chegar; Teremos nossa vez; Não é pedir demais; Quero justiça; Quero trabalhar em paz; Não é muito o que lhe peço; Eu quero o trabalho honesto; Em vez de escravidão; Deve haver algum lugar; Onde o mais forte não; Consegue escravizar [...]”, assim cantavam Renato Russo e sua Legião Urbana na letra de “Fábrica”,de 1986.
Guardado o contexto da época e os próprios termos que a melodia traz, a canção segue muito atual em suas metáforas ao enfatizar a luta de classes, entre patrão e empregado, e denunciar a exploração vivida por grande parte da classe trabalhadora, que segue tentando sobreviver ao mesmo tempo em que espera por melhores condições de trabalho, dignidade, respeito e direitos reconhecidos.
Tentar sobreviver numa realidade em que os salários são, em grande medida, rebaixados, e as jornadas de trabalho são extensas, intensificadas ainda mais pelo aparato tecnológico, que acaba por não desconectar os trabalhadores e as trabalhadoras de seus locais de trabalho.
Descanso, tempo livre ou lazer???
Não há. É restrito, limitado ou inexistente mesmo...
“O direito a preguiça”, como escreveu o escritor e ativista político cubano Paul Lafargue (1842-1911), não pertence a todos!
Para quem vive do trabalho e depende dele como meio de sobrevivência, descansar, ter um tempinho livre – por menor que seja –, um momento de lazer ou estar presente no cotidiano das pessoas próximas de si, parece algo distante e impossível.
A vida se resume a trabalhar, trabalhar, trabalhar...
A centralidade que o trabalho ocupa na vida de parcela significativa da classe trabalhadora é o cerne do movimento “Vida Além do Trabalho” (VAT), que ganhou destaque nos últimos dias, ocupou as redes sociais, pautou o debate público e chegou até o Congresso Nacional, onde tensiona exatamente essa exploração exacerbada vivida por quem quase não para numa jornada de trabalho 6x1.
O protagonista desse grito de denúncia e de socorro é o recém-vereador eleito pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol) no Rio de Janeiro, Ricardo Azevedo. Enquanto candidato, Rick Azevedo – como se apresenta – foi um verdadeiro fenômeno, contando com poucos recursos para a campanha, ao mesmo tempo em que foi o vereador eleito mais votado na cidade.Sua bandeira de luta “pelo fim da jornada de seis dias de trabalho” ecoou e fez sentido para muitos que acompanham seu trabalho nas redes sociais ou mesmo se sentiram representados pela condição extenuante e precarizada de trabalho a que estão submetidos.
Com milhares de seguidores em suas redes, Rick fazia desse espaço uma espécie de lócus de desabafo e denúncia, no qual expressava seu descontentamento, angústias e inquietações de quem vive para trabalhar.
Assim, o movimento foi ganhando corpo e transformou-se numa petição pública nomeada “Por um Brasil que vai além do trabalho: VAT e Ricardo Azevedo na vanguarda da mudança”, a qual pedia ao Congresso Nacional que houvesse alterações na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em relação à redução da carga horária.
A bandeira ganhou apoio de parlamentares da esquerda – tendo Erika Hilton (Psol) à frente desse debate – e colocou os partidos de centro e direita numa verdadeira “saia justa”, já que essa não é bem o tipo de pauta que tem aderência entre os representantes deste espectro político – quando se lembra, por exemplo, que seus representantes foram favoráveis às mudanças impressas pela Reforma Trabalhista de 2017, a qual trouxe grandes perdas de direitos ao conjunto dos trabalhadores a pretexto da “modernização” das leis trabalhistas.
Pois é, a luta de classes tão propagada pelo lendário filósofo alemão Karl Marx (1818-1883)está dada e num horizonte onde “deve haver algum lugar”, como cantava Renato Russo, “onde o mais forte não consegue escravizar”, se faz o enfrentamento dessa exploração desenfreada das condições de trabalho, até porque há vida além do trabalho. Muita vida!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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