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SUB-VERSÃO

Vida

Olhando por cima do notebook aberto sobre minhas pernas, vejo meus dedos do pé. Tortos, estranhos, e imagino sua aparência quando eu morrer. Penso que estarão arroxeados. Na verdade, já o estão agora, já que pedi que a manicure usasse um esmalte cor de lavanda nas unhas.

Mas, como será vê-los enrijecidos pela morte, talvez até com aquela plaquinha de identificação que a gente costuma ver em filme ou série. A morte é mesmo a derradeira temporada de uma série de fracassos, infortúnios, esparsas e pequenas alegrias e, por sorte, alguma espécie de amor? Será que tudo acaba no frio congelante de já não sentir?

Continuo olhando de soslaio para meus pés feios, continuo olhando de soslaio para morte. Continuo apressando o passo para que, ao final de tudo, ou não, não sei ao certo, eu não tenha vivido pouco.

Olho para a vida de frente, que ela não nos permite esse olharzinho covarde, de lado. Não, a vida, não.Ela exige que a miremos nos olhos, cara a cara.

Mas, de vez em quando, me pego pensando na morte, como agora, enquanto escrevo esse texto e vez por outra desvio o olhar para meus pés feios, esticados na cama, como fora eu morta, como se a vida não fosse nada além de algumas palavras.

Quantas mortes, quantas sentenças interrompidas antes do ponto final. Pontos finais arbitrariamente decretados, independente da vontade do autor da história.

Uma gripezinha, disseram os inconsequentes... Uma gripezinha, somada à irresponsabilidade e à falta de empatia de muita gente. Acrescida, ainda, da abominável conduta do presidente do país. E já somamos quase 260 mil mortos. 260 mil!

E eu, que detesto os números, acabo de repetir um, por puro espanto. Pela tristeza que me causa pensar, e sempre vou pensar dessa forma, que pessoas não são números, não podem jamais ser reduzidas a isso. Sinto-me tomada por uma desesperança que não me é comum, não a mim, que sempre gostei e fiz questão de esperançar...

Olho novamente para os meus pés, agora já não estão mais na cama. Saindo dela, vão pro chão. Ajoelhada, peço ao Altíssimo alguma clemência. Peço o que parece impossível. Peço pelo ar que falta a tantos, peço que cesse a arrogância que sobeja a tantos outros. Peço que me devolva a esperança de antes, mas não a vida de antes. Peço apenas pela vida, só pela vida.

 

 

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