Todo ano, a essa época, ele estaria animado, o rosto marcado pelo tempo ganharia ares de festa, de contentamento. Arrumando coisas como sempre fazia, desarrumando para arrumar, na verdade, inquieto que sempre foi. Junto da esposa muito amada, estaria decorando a casa com tudo que é tipo de enfeite: flores, luzes, bibelôs, papais noéis de expressões cansadas, outros, assustadoras, meias, pacotinhos de pendurar na árvore.
Ah, a árvore... Esse é um capítulo à parte. Tinha de ser natural! E quantas não foram as aventuras em que ele se envolveu à caça delas. Pois é, ele tem também esse lado fora da lei. O importante é que todo ano, religiosamente, haveria um pinheiro grande, suntuoso na sala de estar, grande o suficiente para que coubessem nele todas as bolinhas multicoloridas e os enfeites acumulados ao longo dos anos. Grande o suficiente para lembrar a quem quer que fosse que entrasse pela porta de que sim, era Natal.
Mas esse ano, não. Não, esse ano ele perdera o encanto, o viço, o sorriso de menino que tomava conta de seu rosto senil, todo ano quando o Natal se aproximava.
Não estava disposto a enfeitar a casa, nem ao menos tinha se dado ao trabalho de procurar pelos enfeites na garagem. A vida perdera o enfeite: Ela partira.
Arrumar a casa toda para que, se não ouviria o riso estridente dela, ao vê-lo embolar-se todo desembaralhando os fios de luzes?
Procurar enfeites? Essa tarefa ele fazia na companhia dela. Na verdade, era ela quem selecionava qual devia ir em que lugar. E todas as coisas ficavam magicamente no lugar, quando ela estava.
Até mesmo os desentendimentos, as mágoas que vez por outra emergem nessa época, em que parentes distantes se encontram, ela era capaz de apaziguá-los todos, acalmando os ânimos até mesmo dos corações mais relutantes. Ela era a própria luz do Natal. A luz que o guiara por muitos natais.
Por isso, nessa noite, ao contrário do que acontecera em todas as outras nessa época do ano, não se verão as luzes acesas naquela casa, nem se ouvirão os risos, nem mesmo o ronco depois da comilança. Porque ela partiu. Porque ele simplesmente não sabia como viver sem ela.
Ao invés do perfume inebriante dos figos que ela preparava todo ano, doces como ela, era pútrido o odor que sentiram os vizinhos e que os chamou a atenção para aquele pobre velho solitário, afinal, era a isso que ele se reduzira sem ela.
Era manhã de Natal, quando seu corpo foi encontrado.
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