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SUB-VERSÃO

Guerras

O cenário é desolador. Há uma guerra em curso. Ouço ao longe o som mortal das granadas explodindo. O som vai tornando-se cada vez mais próximo.

Um agudo zumbido em meu ouvido. Fui atingida! Jogada longe pela força de uma explosão. Não consigo ouvir mais nada, nem me orientar direito, permaneço deitada na mesma posição que me deixou a bomba. Não sinto minhas pernas, tento a todo custo movimentá-las, mas não consigo. Deve haver alguma coisa prendendo-as e eu nem ao menos consigo ver o que é.

Fico ali por minutos, horas? Quem sabe... Até que percebo uma presença se aproximando. Eles me encontraram! Ele me encontrou e é um médico! E não demora em me prestar toda a assistência necessária. Num primeiro momento, acalmando-me, fazendo-me atenta a ele e suas palavras, a fim de que não sucumbisse e perdesse os sentidos.

O que ele está dizendo? Já não consigo mais ouvi-lo. O barulho em meus ouvidos é ensurdecedor. O que ele está mesmo dizendo? Meus olhos cobertos de poeira já não decifram sua boca. 

Talvez tenha sido esse o momento crucial, o momento em que ele, meu anjo, teve de executar manobras cardíacas a fim de me reanimar. E foi aí que seu capacete pesado caiu bem em cima do meu dente da frente, e eu gritei: – Ai, Lucas! Acho que você quebrou meu dente!

Ele, assustado, já se desculpava pelo que nem havia feito. Não, não quebrei o dente, mas confesso que a pancada doeu um bocado.

Nossa encenação fora ótima! Eu simplesmente amo assumir os papéis que ele me delega e os encarno com paixão!

É um alento saber que uma criança ainda pode brincar e imaginar e atuar, enquanto há uma verdadeira guerra sendo travada lá fora. Fora do recôndito cada dia mais sagrado de nossos lares, há uma guerra contra um inimigo impiedoso e invisível, e nossos dias andam tão pesadamente tristes, que brincar com meu sobrinho é para mim, não uma fuga, mas uma entrega a uma realidade mais feliz e inocente.

Lucas é minha centelha de esperança, ainda que tudo dite o contrário. Quando de nossas brincadeiras, não volto a ser criança, e isso é o mais interessante, continuo sendo uma mulher adulta de trinta e seis anos, mas que ousa se permitir a delícia que é brincar.

São doses diárias de um ânimo que a vida vem tentando me roubar...

E agora, enquanto digito esse texto, ainda posso ver os da guerra de hoje de manhã. Ainda há balas por todo lado, espalhadas pelo chão do meu quarto, que hoje mais cedo foi cenário de uma batalha sangrenta.

E o que me resta fazer? Juntá-las uma a uma, tomando o cuidado de não esquecer nenhuma, e entregá-las ao general amanhã, quando aparecer por aqui para renovar minhas esperanças. 

A guerra lá fora continua cruel e mortal. Talvez por isso, e estranhamente não me sinto mal por fazer essa afirmação, só me reste mesmo curtir as guerras daqui de dentro, cheias de criatividade, alegria e amor. As guerras que me trazem alguma paz.

Quisera eu que as mazelas do mundo se resumissem a essa encenação bendita entre uma tia e seu sobrinho. Quisera eu que toda dor do mundo se resumisse à que senti quando da pancada do capacete sobre meu dente. Aliás, acho até que endireitou meu dente (risos).

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