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SUB-VERSÃO

MEU MENINO (Ou Feliz Dia das Crianças!)

Quando ele sai de casa, apressado, beiço sujo de café, leva com ele minha pouca esperança e todas as minhas preces. Nunca chega a terminar o pão com manteiga, e acho que faz de propósito, porque sabe o quanto eu gosto dum pãozinho e deixa o resto pra mim. Sempre aflito esse meu menino, sempre dedicado.

Ele me põe num pedestal. Eu sou sua mãezinha, como ele costuma dizer.

Nossa vida não é fácil, nunca foi, mas de uns tempos pra cá, tem piorado, sabe? Depois que chegou esse vírus aí e a patroa me dispensou, é ele quem tem feito o papel de homem da casa. Antes, o papel era meu, já que o pai dele, ele nem conhece, me largou logo que soube que ele ia nascer. Covarde! Eu jamais que ia desistir do meu filho, então, desisti foi dele.

Meu filho é o melhor que eu tenho. Ter, ter mesmo, como as pessoas costumam dizer, nós temos muito pouca coisa, mas eu nunca que deixei faltar o de comer pro meu menino, nem que pra isso precisasse tirar da minha boca.

Mas agora, desempregada... Como é que eu faço, moço? O jeito foi começar a fazer doce pra vender. E é ele quem vende pra mim. O menino tem lábia, seu moço. Vai ver puxou isso daquele outro lá. Pelo menos, pra isso o dito cujo serviu. Meu menino é uma simpatia só, todo mundo gosta dele... Menino bonito, isso eu sei que puxou a mim. Pode não parecer, seu moço, mas eu era uma mulata linda na minha juventude. O tempo e as tristezas acabam com a gente, não é mesmo? Hoje eu tô assim, velha, judiada. Mas ele não, ele tem energia, seu moço, e é por isso, que, faça chuva ou faça sol, ele sai todo dia cedinho, cesta na mão e um sorriso tão grande como o coração dele, pra vender meus doces lá pras bandas da zona sul.

Trabalhar com gente fina me ensinou a saber do que eles gostam, sabe? Eu faço o tipo de doce que nunca fiz pro meu filho, mas que servia pros filhos da patroa quase sempre. Doce fino.

Ele tem vendido bem, tá dando para pagar as contas. Mas ele é só um menino, e Deus me livre e guarde das humilhações que ainda vai passar nessa vida... Eu sei, ninguém precisa me contar, não. Nossa cor não deixa outra saída. Eu também já sabia o que era ser negra desde pequenininha. Eu conheço de longe o olhar deles, sei até adivinhar quando vão tomar distância da gente ou fazer algum comentário... Esses comentários corroíam a minha alma!

Por isso é que todo dia, quando ele sai, eu fico aqui rezando, rezando pra Deus olhar por esse menino, livrar ele da maldade das pessoas.

É por isso também, que todo dia, quando eu vejo ele entrando pela porta, não importa se a cesta tá cheia ou vazia, não, seu moço, que eu vou ver isso só depois. O que importa é que eu veja ele, seu moço, que meu filho volte para casa, aí eu já posso agradecer a Deus por mais esse milagre.

Meu filho, seu moço, é só uma criança, e o que eu mais queria nesse mundo é que ele pudesse ser criança. E eu ainda vou conseguir, seu moço, pode acreditar. Eu não tenho o direito de tirar isso dele, não!

Ele não sabe, mas na segunda, não vou acordar ele cedo, não. E eu sei que ele vai zangar comigo, que vai insistir pra sair pra lida, mas eu não vou deixar, não, seu moço. Eu não tenho nenhum presente pra minha criança, mas na segunda-feira, vou fazer o bolo que ele mais gosta. E vai ter até guaraná! Andei guardando uns trocadinhos só pra isso, ele nem notou, porque tudo que ganha, entrega tudo na minha mão. Eu tenho a sorte de ter um menino honesto, seu moço.

Segunda-feira, seu moço, meu menino vai voltar a ser criança!

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