Era um maestro apaixonado, em pleno exercício de sua função. As mãos firmes e leves e ágeis, conduzindo com paixão e encantamento os carros que passavam. Na face, as expressões duras e fortes de alguém de quem muitos esperam sinais, condução e aprovação. Era um homem em êxtase, parado na calçada em frente a uma rotatória, conduzindo em sua mente, talvez uma orquestra, talvez os muitos carros que não cansavam de ir e vir. E o fazia com vontade e empenho absurdos.
Eu me peguei a observá-lo, aquele maestro esdrúxulo, e também a pensar em qual seria a melodia que orquestrava. Como um deus exigente e doce, parecia se divertir enquanto guiava através de gestos e sorrisos nervosos o comboio de gente aflita e motorizada.
E demonstrava descontentamento também, quando um dos carros ousava descumprir suas ordens. Era um deus-maestro meio mimado. Isso me fez lembrar minha infância, quando depois de alguma travessura, minha mãe me punha de castigo. Um castigo previsto para durar horas não resistia a poucos minutos de minha impaciência de criança. Acho que eu vivia decepcionando a “maestrina”.
Mas eu falava sobre aquele inusitado maestro da rua... E todos esses pensamentos invadiram minha mente, e pensei também que só eu o vira. As outras pessoas pareciam nem notá-lo, ou a pressa lhes era tanta que não conseguiam dirigir-lhe um olhar mais demorado. O fato é que havia, sim, um maestro nos conduzindo naquela tarde de trânsito e pouca observação.
Há um maestro nos orientando agora. Enquanto escrevo essas palavras e os pensamentos fluem, ora desconexos, ora flamejantes, sinto que uma sintonia conduz os rumos do Universo. A voz do maestro a rege, sim, a voz e não os gestos. O verbo conduz todas as coisas, atraindo-as para si. E não há nada, nem átomo que a esse seu convite resista.
E eu levanto da cadeira, impaciente; você também. Tudo bem, isso não é problema para aquele que não conhece os limites dessa convenção à qual atribuímos o nome de tempo. É em amor que Ele nos conduz. Os castigos, nós mesmos é que nos impomos.
Os acordes soam tão magnificamente envolventes... É a vida em seu curso, é o maestro, são os carros, é a loucura, é a pressa, é o trânsito, é o descompasso, a busca, a espera, a cadeira, os castigos, a poesia, Deus.
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