Ele percorreu a cidade vendendo pipoca de macarrão por quase 50 anos e ficou famoso entre os bragantinos
“Meu sorriso de hoje compensa a cara de choro das fotos de quando entreguei o carrinho de pipocas ao museu.” O comentário foi do pipoqueiro Seu Geraldo Domingues de Camargo, ao abrir um sorriso para ser fotografado pelo Jornal Em Dia, durante uma entrevista realizada em sua casa. Ele se referia ao dia da reinauguração do Museu Municipal – no último 2 de agosto – quando distribuiu pipocas pela última vez e doou seu carrinho para ser exposto no local.
Apesar de ter ficado feliz com a homenagem, o famoso pipoqueiro de Bragança Paulista contou que parte das lágrimas daquele dia era porque ele achou difícil se desapegar de seu grande companheiro de trabalho. “Ele passou o dia quieto aqui em casa, chorando e se acostumando com a ideia de que iria deixar o carrinho”, contou sua mulher, Olinta Camargo.
Hoje, com 77 anos, Seu Geraldo ainda mantém a mesma generosidade e simplicidade que já cativaram muitas pessoas da cidade. Era fácil encontrá-lo na Praça Raul Leme, quase sempre no mesmo ponto. Já andou a pé por Bragança inteira a trabalho e vendeu suas pipocas de macarrão para gerações de bragantinos. Em 2012, após 47 anos e oito meses como pipoqueiro, aposentou o carrinho e ganhou o merecido descanso.
O pipoqueiro foi homenageado em novembro de 2000 pela Câmara dos Vereadores da cidade e virou nome até de bloco de carnaval, além de receber homenagem na reinauguração do Museu Municipal.
Durante a entrevista que concedeu ao Jornal Em Dia, Seu Geraldo se emocionou algumas vezes ao recordar passagens de sua vida. E não é por menos. Sua história é um exemplo de superação, de quem já passou por infortúnios diversos, mas sempre persistiu em seguir a vida de forma justa e honesta.
DAS FAZENDAS PARA A CIDADE
Seu Geraldo contou que nasceu e trabalhou muitos anos na área rural. “Sabe a fazenda Dona Carolina? Fui nascido lá. Depois, fui mudando de fazendas junto com minha família”, disse. Nessa época, cortou cana, fez cercas de mourão e outros trabalhos por empreita.
De uma família com dois irmãos e duas irmãs, ele foi o último filho a se casar e cuidou dos pais durante muitos anos. “Teve uma época que eu dava metade do meu ordenado a ele. Eu tinha também um dinheiro reserva e disse para o meu pai ‘não quero um centavo desse dinheiro, pode ficar para o senhor e a mãe e nós (ele e a esposa), se Deus quiser, vamos lutar e vai dar pra gente sobreviver’”, disse.
Veio para a cidade quando tinha por volta de 24 anos, em busca de melhores condições de vida, e sempre morou em casas na Santa Luzia. A primeira filha do casal nasceu na área rural, mas faleceu com apenas seis meses porque ficou doente. Na cidade, eles tiveram oito filhos, que deram doze netos e um bisneto à família, atualmente com 11 anos de idade.
ATROPELAMENTO
Logo que chegou à cidade, Seu Geraldo comprou um carrinho de gelinho (raspadinha). “Fiz errado, né? Com isso dá para trabalhar seis meses no ano só. Quando chegava o frio, não vendia nada”, explicou.
A sorte também não jogou a seu favor quando um carro na rua do mercado atropelou Seu Geraldo. “O carro estava bem perto de uma padaria, chamava Padaria Industrial. Acho que o homem, na pressa de pegar pão e sair logo, estacionou sem puxar o freio de mão e o carro me arrastou porque a roupa ficou enroscada”, disse.
O acidente resultou ferimentos, sobretudo na perna e no quadril. Seu Geraldo precisou ficar 97 dias engessado e enfrentou problemas com o dono do carro que, passado algum tempo, começou a maltratá-lo e a se recusar a dar dinheiro para ajudá-lo.
“Na época eu vim do sítio, a gente era pobrezinho e o dinheiro que tinha só empatou no carrinho para trabalhar, mas o homem me falava que eu era vagabundo”, contou, com a confirmação de sua esposa, que acompanhava a entrevista. Ele teve de pedir ajuda a autoridades para conseguir ajuda.
Um médico que o avaliou deu a informação de que ele ficou com uma limitação na perna e não poderia mais trabalhar em um serviço que tivesse que se abaixar e levantar muitas vezes. Seu cunhado, então, deu a ideia de vender pipoca pronta, comprada em Jundiaí.
PIPOCA DE MACARRÃO
A alternativa deu certo e Seu Geraldo passou a vender pipoca de macarrão, a essa altura já com 28 anos de idade. O cabo do carrinho virou a muleta para que ele pudesse andar pela cidade e vencer o problema na perna.
Durante 23 dos 47 anos que trabalhou vendendo pipoca, Seu Geraldo ia a pé de sua casa na Santa Luzia até vários lugares da cidade - na praça do Centro, no posto de monta, na igreja da Santa Terezinha, nos desfiles de carnaval, entre outros. Muitas vezes, chegava depois da meia noite em casa.
“Na estrada da Penha, eu voltava pra casa e meu cabelo era louro de tanta poeira”, brincou, ao se recordar de muitos trajetos que eram em ruas de terra.
Quase não havia descanso. “Cheguei a trabalhar 34 dias direto, sem parar nenhum dia”, disse, satisfeito. Mesmo assim, quando ficava em casa, tinha o trabalho de peneirar a pipoca, para tirar as partes quebradas, e temperar.
“Ela vinha pronta, você joga óleo e sal, aí pode torrar que tá no ponto”, explicou. A mulher sempre ajudava, assim como os filhos, que montavam manualmente os saquinhos de pipoca.
SUSTENTO PARA A FAMÍLIA
A venda de pipoca sustentou a família toda durante anos. “A gente podia não ter luxo, mas arroz com feijão nunca faltou, graças a Deus. Esse homem aí, com toda a dor que tinha na perna, andava por tudo, tinha cãibra, mas não parava de trabalhar, ele com minha mãe. Por isso, fomos privilegiados”, contou uma das filhas de Seu Geraldo, que passou pela sala durante a entrevista.
Ela também disse que, nas refeições, seu pai pedia que fosse o último a ter comida no prato, para ter certeza de que todos teriam o que comer. “Ele era forte, ia trabalhar até doente. A gente ficava mal, mas era trabalhar um dia para comer no outro, né? Não havia décimo terceiro, férias, garantia de nada”, afirmou a filha.
Mesmo com pouco lucro, ele conseguiu comprar a casa que moram há 25 anos, sem atrasar um só dia de pagamento.
Seu Geraldo, que a essa altura da entrevista estava com os olhos marejados ao ouvir a fala da filha, contou que sempre fez seu trabalho de forma justa. “A turma falava ‘ah, o senhor vende muito barato’, mas não importava, eu sabia que estava ganhando uma quantiazinha, pra mim estava bom assim”, disse.
Ele explicou que a venda de pipoca de macarrão é bem menos lucrativa do que a de milho – um saco da versão de macarrão custa por volta de 27 reais. Com um pacote de milho para pipoca, que custa barato, Seu Geraldo contou que é possível encher facilmente esse mesmo saco.
“Tinha hora que ‘garrava’ vir gente pedir de graça pipoca no carinho. Eu sempre dava um punhadinho e tinha gente que ainda falava que eu era miserável. Miserável... Eu queria que a pessoa estivesse no meu lugar aqui, para ver se até esse punhadinho ela daria para os outros. Se eu estivesse cobrando o preço justo da pipoca de macarrão, ia ser bem mais caro. Mas a gente é honesto”, exclamou Seu Geraldo.
DOIS ASSALTOS NO MESMO DIA
O pipoqueiro andou vários anos pela cidade sem passar qualquer perigo, mas, nos últimos anos, passou por alguns momentos difíceis. Certa vez, no caminho entre a Santa Luzia e a praça, dois moleques o abordaram, um deles dizendo estar armado, e levaram o dinheiro que tinha.
Era um domingo, o dia em que mais conseguia vender. Uma mulher que passava pela rua no momento do assalto o levou de carro até a delegacia, mas os jovens não foram encontrados.
Seu Geraldo então voltou para casa a pé e, no caminho, foi abordado por mais outros dois rapazes na Santa Luzia, querendo o seu dinheiro. “Aquele dia levantei com o pé esquerdo, ‘disgramado’”, disse, rindo ao se lembrar.
Ele contou aos novos assaltantes o que acabara de acontecer e ofereceu o que lhe restava: uma caixinha com algumas moedas. No fim, os jovens ficaram com pena de Seu Geraldo. “Um deles ainda ficou teimando comigo, ‘vamos atrás desses bandidos!’”, contou.
Outro dia na praça, por volta de quatro moleques ficaram rondando Seu Geraldo, pediram pipoca e esperaram um momento de distração do pipoqueiro para tirar o dinheiro de seu bolso e sair correndo.
“Tinha outro rapaz também que acho que tinha espírito ruim dentro dele. Enquanto eu estava com o vidro de sal na mão e o saquinho na outra pra dar pra pessoa, ele chegava de jeito, enchia a mão de pipoca e saía gozando de mim ainda. Tinha dia que nem vontade de trabalhar eu tinha de tanta dor de cabeça que esse camarada dava”, lembrou.
O rapaz só parou de perturbar quando Seu Geraldo o assustou e fechou a porta do carrinho na mão do jovem, durante uma de suas empreitadas para tentar pegar pipoca.
ENFIM, A APOSENTADORIA
Faz um pouco mais de um ano e dois meses que seu Geraldo parou de trabalhar, mas só o fez porque o seu corpo estava exigindo descanso. A família contou que ele custou a tomar essa decisão.
“Tinha dia que eu chegava tão ruim no estacionamento onde ficava o carrinho que precisava ficar uns 40 minutos sentado. Eu estava indo a pé ainda, mas ficava com fortes dores no pescoço. Tinha hora que dava cada pendida que parecia que ia cair até, não aguentava andar. Eu torcia para que a mureta da praça ficasse livre para eu poder sentar”, explicou.
Os problemas de tontura também renderam alguns tombos em casa. “Procuramos um médico, que disse ‘Seu Geraldo, o senhor já trabalhou bastante, se alguém da família quiser tocar o serviço, tudo bem, mas o senhor pare, esqueça o carrinho”, disse. A partir de então, Seu Geraldo foi parando aos poucos.
Hoje, disse que continua vendendo pipocas, mas durante a noite, enquanto dorme. Sonha várias vezes que está trabalhando no carrinho e até acorda preocupado porque acabou o saquinho ou aconteceu outra coisa que ele precisa arrumar.
HOMENAGEM MERECIDA
Ao ser questionado sobre o que achou das homenagens que já recebeu, Seu Geraldo tentou explicar o motivo. “Falaram que iam me homenagear, mas eu disse que não achava que eu merecia. Talvez seja porque as pessoas notavam meu trabalho”, justificou.
Ele lembrou que, quando vendia pipoca depois da missa das crianças, aos domingos, na Catedral, uma fila enorme se formava no seu carrinho, enquanto os outros pipoqueiros ficavam de braços cruzados.
“Por causa disso, vieram me perguntar, ‘Seu Geraldo, quero saber o segredo do senhor’. Falei que isso daí nem a gente entende. Eu sabia que atender bem a turma eu atendia. Fazer meio de vender uma pipoca boa eu fazia. Mas esse jeito que o pessoal tem com a gente, até dá pra pensar que é coisa de Deus, né? É... Coisa que Deus tá achando que a gente merece então”, concluiu.
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