Prefeito cria Comitê de Gestão da Crise de Falta d’Água, mas não acredita que o recurso falte em Bragança Paulista

Nessa sexta-feira, 8, foi criado em Bragança Paulista o Comitê de Gestão da Crise de Falta d’Água, por meio do decreto 1.914. O prefeito Fernão Dias da Silva Leme e o secretário municipal de Meio Ambiente, Francisco Chen de Araújo Braga, conversaram com o Jornal Em Dia sobre a medida e também sobre alguns aspectos da maior escassez de água que a região já enfrentou.

Para se ter uma ideia da dimensão do problema, nesse sábado, 9, os dados do site da Sabesp mostravam que o volume operacional do Sistema Cantareira, que não abastece Bragança Paulista, mas que capta água do Rio Jaguari, este sim responsável pelo abastecimento da cidade, era de 14,1%. O número leva em conta o volume útil das represas e a reserva técnica, também conhecida como o volume morto.

Dos reservatórios do Sistema Cantareira, a pior situação se encontra na Represa Jaguari/Jacareí, onde a capacidade operacional estava em 3,98% nesse sábado. Nas demais, os índices eram de 25,53% (Cachoeira), 87,39% (Atibainha) e 48,11% (Paiva Castro).

A situação vem se agravando devido à falta de chuvas, que é histórica. A média pluviométrica para o mês de agosto é de 36,9mm. Até agora, choveu apenas 0,2mm. E esses dados de falta de chuva vêm se repetindo há meses, por isso, os reservatórios vêm registrando a diminuição de sua capacidade operacional.

O prefeito afirmou que a falta de água o preocupa, assim como também é a preocupação de toda a população não só de Bragança como de todo o estado. “Porque a água é vital para o ser humano, talvez a principal fonte de saúde e de dignidade da pessoa, mais que a energia elétrica, mais do que a casa, é a água”, avaliou Fernão Dias.

Apesar disso, o prefeito garantiu que racionamento ou rodízio de água estão fora dos planos na cidade. Devido à posição geográfica que o município se encontra, o secretário Francisco Chen declarou que Bragança Paulista está numa condição privilegiada. “Bragança está na cabeceira do Jaguari, numa posição estratégica privilegiada em relação a outros municípios porque Bragança é o primeiro município a captar água do Jaguari, após a represa. Então, isso favorece muito a nossa condição”, garantiu o secretário.

Quanto ao Sistema Cantareira, até então principal responsável pelo abastecimento da Grande São Paulo e que a cada dia dá sinais de uma morte anunciada, já que seu volume operacional está cada vez mais baixo, Fernão Dias disse que há um aspecto político envolvido na questão. “Existe uma vontade muito grande do governo (estadual) que essa água não acabe até o dia da eleição. Por outro lado, o volume morto está cada dia mais morto. Não sei até quando a Sabesp vai conseguir tirar essa água. Vai ser um divisor de águas o dia 7 de outubro. O antes e o depois”, afirmou o prefeito, destacando que Bragança não será afetada em nada caso a água do Cantareira acabe.

O secretário de Meio Ambiente acrescentou, porém, que não há um estudo unificado em consenso entre as autoridades sobre a possibilidade de o sistema secar, por enquanto, as informações são conflitantes.

A reportagem, então, quis saber do prefeito sua opinião sobre a postura do governador Geraldo Alckmin e da Sabesp, que insistem em afirmar que a situação está sob controle, e até que ponto isso dificulta a compreensão da população sobre a gravidade do problema que a falta d’ água efetivamente representa.

Fernão Dias afirmou que a posição do governador, que tem credibilidade junto à população, pode sim determinar o modo de agir da população quanto ao consumo de água. “Como o governador vem dando segurança à população no sentido de que não vai faltar água pode ser que a população realmente não se preocupe tanto com a economia. Por outro lado, ele incentivou a redução do consumo com a oferta do bônus nas contas de água”, disse o prefeito, referindo-se ao desconto de 30% que o governo e a Sabesp estão dando para os usuários que economizarem 20% do consumo de água. “É uma medida de curto prazo e que dá resultado”, avaliou.

O secretário Francisco Chen falou, então, sobre as ações que a Prefeitura está desenvolvendo para a conscientização da população. De acordo com ele, estão sendo desenvolvidas campanhas para incentivar a economia de água nos prédios públicos, foram feitas palestras em escolas, distribuídos material informativo e redutores de vazão, que são peças plásticas para se acoplar nas torneiras, o que resulta na diminuição de 20 a 50% do consumo de água, segundo ele. “O prefeito aposta na educação ambiental como forma de mudar comportamentos, ele acredita na educação como forma de transformar a sociedade, então, a gente vem promovendo a ideia do consumo consciente”, disse o secretário.

Sobre os resultados dessas ações, Chen considerou que ainda é muito cedo para se colher os frutos delas, mas que já é possível sentir um retorno positivo da sociedade. Ele ressaltou que a educação ambiental é um processo de transformação, que envolve muita reflexão das pessoas e que, por isso, os resultados deverão aparecer em médio e longo prazo.

 

COMITÊ DE GESTÃO DA CRISE DE FALTA D’ÁGUA

 

A partir de agora, haverá em Bragança Paulista um novo espaço para o debate da escassez de água. Trata-se do Comitê de Gestão da Crise de Falta d’Água, que terá nove membros, sendo quatro servidores públicos e cinco representantes da sociedade civil.

O Gabinete do prefeito e as Secretarias Municipais de Desenvolvimento dos Agronegócios, Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico terão um representante cada. Além disso, serão nomeados membros dos setores de agricultura, comércio, indústria e da Empresa Elétrica Bragantina, que agora atua com o nome de Energisa, e da Sabesp.

A coordenação dos trabalhos do comitê ficará a cargo do representante do Gabinete do prefeito. Serão realizadas reuniões mensais e a existência do grupo está estimada em dois anos ou até que a crise hídrica termine.

O decreto publicado nessa sexta-feira também especifica as atribuições do comitê, que são: buscar e promover alternativas para a redução do consumo de água e energia elétrica; envolver e sensibilizar a comunidade a partir de sua participação em ações de recuperação ou proteção de nascentes, cursos d’água e matas ciliares; buscar e promover meios disponíveis no poder público e no setor privado para minimizar a crise; e buscar e promover meios de geração de energia sustentável.

O Jornal Em Dia indagou o secretário se o comitê poderá fazer algo além dos debates, ações efetivas para amenizar o problema da falta d’água.

Ele disse que sim, explicando que poderão ser discutidos e elaborados no comitê projetos de lei que incentivem o consumo consciente. Francisco Chen mencionou a lei do Iptu Verde, sancionada pelo prefeito Fernão Dias, mas que ainda depende de regulamentação, medida que poderá ser definida durante as reuniões do comitê, conforme apontou.

“Esse e outros assuntos podem surgir e serem executados de fato. O comitê é um fórum legítimo para esse debate”, declarou o secretário municipal de Meio Ambiente.

Os membros do Comitê de Gestão da Crise de Falta d’Água ainda não foram nomeados, por isso, a primeira reunião também não foi agendada.

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