“Menina de novo?” Não houve qualquer esboço de comemoração dada a notícia, ao contrário, fez-se bem nítida a decepção no olhar do pai. Esperava por um menino, homem, seu sucessor.
“Seja bem educada, sente direito, feche mais as pernas, isso são modos de uma menina? Vá brincar com as outras e largue essa bola, que isso não é coisa de menina. Por que não fica quieta? Por que responde? Às vezes, você parece um moleque!”
“Menstruou, é? Que nojeira, trate logo de esconder esse sangue e nem se atreva a cozinhar, que vai me fazer perder dinheiro. Mulher naqueles dias estraga tudo em que coloca a mão”.
“O quê? Lavou o cabelo? Mas já não te falei mil vezes pra não lavar essa juba quando tiver naqueles dias?”
“Irritadinha... Só pode estar na TPM!”
“Tá na TPM, é? Come um chocolatinho que passa, que eu não sou obrigado a aguentar essa sua reclamação. Não tá contente com nada. Eu chego cansado do serviço e ainda tenho que escutar larida... Ah, vá...”
“O quê? Eu lavar a louça? Você só pode estar ficando louca! Isso deve ser influência daquelas suas amigas esquisitas. Já te falei pra parar de falar com elas, né? Eu tô te avisando...
Onde já se viu, homem que nem eu lavando louça? Se sua sogra fosse viva, você ia levar um esculacho por sugerir que o filhinho dela se preste a esse tipo de serviço. Serviço de mulher!”
“Sabe o que você tem? Eu sei o que você tem, é preguiça! Fica em casa o dia todo e ainda tem a capacidade de reclamar, queria ver se trabalhasse que nem um camelo que nem eu faço”.
“Vai dirigir? Deus nos proteja! Mulher no volante é um perigo, hein. E se precisar trocar o pneu do carro?”
“Vai sozinha na oficina mecânica? Certeza que vai ser enganada a trouxa”.
“Solteira nessa idade? Ixi... já era, vai ficar sozinha o resto da vida”.
“Já passou dos trinta e ainda não tem filhos? Ah, nem cogita tê-los? Mas você tem algum problema, ou não quer mesmo?”
“Todas as amigas casadas e você aí, sozinha. Também com esse gênio difícil que você tem... Também pudera, espantou todos os caras que podiam te querer”.
“Que boca suja, menina! Menina não fala assim, não!”
“Tem que casar virgem, viu? Não quero saber de filha minha comentada por aí, não”.
“Ficou com dois, três... Mais rodada que pratinho de micro-ondas!”
“Filho, só não esquece de usar camisinha, tá? Meu orgulho!
“A sua irmã? Na mesma, como sempre. Aquela lá nunca vai endireitar”.
“Você não acha que essa saia tá curta demais, não, menina? Depois reclama que os caras mexem... Toma vergonha nessa cara!”
Ser mulher é ouvir frases como essas todos os dias. Ser mulher é ser violentada de diversas formas todos os dias. Ser mulher é ter medo de ser mulher, e apesar disso, tornar-se mulher todos os dias.
Ser mulher é não calar-se, mesmo diante das maiores atrocidades. Ser mulher é apoiar outras mulheres!
Não, não existe estupro culposo. Não, a culpa não é da vítima, nunca!
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