“Por que meus pais não deixaram eu ir para a universidade pública?”.
Assim começa o vídeo da influencer Tulliane Maravilha (filha do ex-jogador Túlio Maravilha e sua esposa, Cristiane Maravilha), que viralizou em vários canais e redes sociais nos últimos dias. Poderia ser um esquete de humor, como, aliás, foi feito por outros canais em tom de zoeira a partir desse material, só que nesse caso não era. A realidade do vídeo traz elementos tão absurdos quanto infundados, que beiram a uma distopia de quem parece viver numa bolha.
Logo no início, a mãe da jovem destaca a defesa e manutenção dos valores da família como um dos motivos apontados para o impedimento da filha ir para a universidade pública e ressalta que a faculdade particular está mais alinhada aos valores e princípios de sua família.
“Seria cômico se não fosse trágico” – como diz o ditado popular usado em situações tão absurdas, ridículas ou paradoxais que parecem ser piadas, mas no fundo, são sérias, danosas ou tristes.
Valores e princípios são, de fato, uma escolha pessoal. Baseados em tradições, costumes e crenças – que podem ter alguma base religiosa ou não – cumprem uma espécie de sustentáculo que orientam o comportamento humano e podem, inclusive, passar pelo “crivo” de cada um. Nem sempre há sintonia entre o que se diz e o que se faz. A hipocrisia, aliás, tem se mostrado bem presente em tempos de discursos fundamentalistas exacerbados!
Quanto aos valores de cada um, portanto, não deveria haver nenhum problema em ir para uma universidade pública, já que ela se orienta pelo reconhecimento e respeito à diversidade, pluralidade, inclusão e laicidade. O conjunto de princípios éticos, políticos e educacionais que regem suas ações são voltados para o desenvolvimento social, científico e tecnológico do país.
“Preferir” estar numa faculdade privada, ao que parece, vai mais ao encontro da autonomia e do “direito” em ditar regras e normas dentro da lógica do “eu estou pagando”, do que, de fato, sofrer alguma represália quanto aos tais valores e princípios defendidos.
Algo bem típico de quem, eventualmente, não conhece ou nunca pisou numa universidade pública e segue reproduzindo no imaginário um universo distorcido e irreal de reduto “comunista”, “esquerdista”, “feminista” – e por aí vai – que atenta contra os valores e destrói a família tradicional.
O ex-jogador Túlio Maravilha e sua filha, numa espécie de jogral, seguem o vídeo na mesma linha de quem não conhece de onde se fala ao dizer que a universidade pública está “bem precária”, “caindo aos pedaços” e “não tem papel higiênico”.
É fato que as universidades públicas sofrem com um desfinanciamento crescente e estrutural, o que tem impacto concreto no conjunto das ações que desenvolve. Vemos isso na aprovação da Lei Orçamentária Anual (LOA) para 2026 ao estabelecer um corte de R$ 488 milhões no orçamento das 69 universidades federais, medida que ocorre em paralelo ao aumento e manutenção para emendas parlamentares, saltando para R$ 61 bilhões. Apesar disso, não chega a faltar papel higiênico e, mesmo com recursos tão enxutos, ela se constitui como uma das mais produtoras de ciência do país. Imagina se tivesse mais investimento do que ela seria capaz!
Fato é, que a educação pública em nosso país – de modo especial, suas universidades – é um espaço privilegiado de construção do pensamento crítico no horizonte da transformação da realidade vivida e tensionamento das estruturais desiguais que sustentam esse país. Não à toa, é alvo de tantos ataques e ofensas...
Na universidade pública, os futuros profissionais contam com a oportunidade de não se limitarem a formação técnica, a qual se dedicaram por anos, mas podem se orientar por um fazer profissional comprometido com a transformação da sociedade e justiça social. Não é um fazer por fazer, mas fazer algo que faça a diferença e que pode mudar a vida ou a realidade de alguém...
Talvez por isso a universidade pública incomode tanto: porque ela permite furar bolhas e mostrar uma realidade para além da fantasia que se vive, tensionando, inclusive, valores e princípios mantenedores de poder e privilégios.
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Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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