No meu carro, carrego de tudo, mas dessa vez, não tinha uma guia, uma focinheira, uma cordinha, um barbante. Não havia nada que eu pudesse usar para amarrar um focinho enorme e rosnante. Estava sem cinto, bolsa sem alça, sem meia... Isso mesmo, já usei uma meia como focinheira, funciona bem.
Alguém chegou com uma guia, mas era curta e rígida. Serviria bem para prendê-lo no banco do carro, mas e o focinho? No carro, cheio de caixas, papéis, cadeirinha de rodas e duas cestas básicas que eu havia retirado em doação pela manhã, ainda havia uma pessoa com sua cachorrinha anestesiada esperando com paciência, e receio, para retornar a sua casa. Estávamos saindo do veterinário quando recebi o pedido de resgate de um cachorro machucado na subida do Hotel Santo Agostinho.
O cachorro era grande, não sei dizer a raça, talvez um fila misturado, tigrado de um marrom chocolate, peito branco, olhos caídos. Estava com uma ferida no peito que sangrava. Fiz uns agrados e consegui passar a guia em seu pescoço. Tentei fazer com que entrasse no carro por livre e espontânea vontade, mas o “vamos passear” não funcionou. Não queria pegá-lo, pois não sabia se estava com dor e havia o risco de ser mordida.
Não tive alternativa, tirei o cordão da mochila que acompanha o kit de adoção da Pedigree (perdi um kit!). Amarrei o focinho, arrematei com um lacinho e num impulso coloquei o gigante no porta-malas do carro. Prendi a guia no encosto do banco e lá fomos nós, o caminho todo a observá-lo pelo espelho. Deu para notar que não gostava de ficar preso.
Segui para o abrigo depois de deixar em casa a pequena poodle que havia sido mordida numa briga com outro cão. Senti mais confiança para tirá-lo do carro. O focinho já estava livre do cordão, mas não tive problemas para colocar nele uma focinheira. Era apenas um grande cão assustado, reagindo com um leve rosnado a qualquer movimento inesperado.
Acomodei-o na clínica para ficar em segurança, pois colocar animais novos com outros em final de dia, sem saber se vai dar certo, não dá certo! Assim que fechei a porta, ele enlouqueceu. Pulava, latia e batia com as grandes patas na porta para tentar abri-la. Passei mais uma volta na chave por segurança, pois na entrada dormem os velhinhos. E coloquei um bilhete na porta: cuidado, cachorro grande e bravo, esperar o Dr. Fernando chegar. Vamos ver no que vai dar.
Márcia Davanso, fundadora e
presidente voluntária
Faros d’Ajuda
Associação de Proteção aos Animais
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