15 de maio de 2026
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Geral

13 de Maio: liberdade sem reparação

O 14 de Maio e as marcas que permanecem

Por Rebeca Marques

Durante décadas, o 13 de Maio foi ensinado como símbolo de liberdade e redenção nacional. A assinatura da Lei Áurea, em 1888, foi apresentada como um ato humanitário da monarquia brasileira. Porém, revisitar essa data exige romper com narrativas romantizadas da história brasileira.

A abolição da escravidão não significou inclusão social da população negra. Não houve reforma agrária, indenização, acesso à educação ou políticas de integração. O Brasil aboliu oficialmente a escravidão, mas manteve intactas as estruturas de exclusão racial que sustentavam o país.

Por isso, intelectuais e movimentos negros passaram a afirmar que o verdadeiro significado dessa história começa no 14 de Maio: o dia seguinte à abolição. O dia em que milhões de pessoas negras foram lançadas à própria sorte.

Hoje, mais de um século depois, os efeitos desse abandono ainda podem ser observados nos indicadores sociais brasileiros. Segundo dados do Ministério da Igualdade Racial, pessoas negras (pretas e pardas) representam cerca de 56% da população brasileira. Ainda assim, seguem ocupando os lugares mais vulnerabilizados da estrutura social.

Os dados da violência revelam, de forma brutal, a permanência dessa desigualdade racial. O Atlas da Violência 2024 mostrou que 76,5% das vítimas de homicídio no Brasil eram pessoas negras. Entre os jovens assassinados no país, aproximadamente 73% também são negros. Isso significa que o racismo não é apenas uma herança histórica; ele continua organizando quem vive, quem morre e quem tem acesso à dignidade.

Como estudante das áreas sociais e pesquisadora das relações raciais, compreender o 13 de Maio exige também olhar para os impactos subjetivos produzidos pelo racismo estrutural. E é nesse ponto que a psicanálise se torna uma ferramenta importante de leitura social.

O racismo produz sofrimento psíquico. Ele atravessa a construção da identidade, da autoestima e do pertencimento. Produz hipervigilância, silenciamento, medo constante e sensação de não reconhecimento social. A violência racial não atua apenas sobre o corpo negro; ela também atravessa a subjetividade.

A psicanalista Neusa Santos Souza escreveu que “ser negro é tornar-se negro”, apontando como a experiência racial no Brasil é construída dentro de uma sociedade que, historicamente, associa humanidade, beleza e poder à branquitude.

Já Frantz Fanon, ao analisar os efeitos psicológicos do colonialismo, demonstrou que o racismo produz alienação subjetiva, desumanização e rupturas profundas na experiência de existir.

Quando observamos os índices sociais brasileiros, percebemos que o 14 de Maio nunca terminou completamente. Ele continua quando pessoas negras são maioria entre os desempregados, entre as vítimas da violência estatal e entre aqueles que possuem menor acesso à saúde mental, educação de qualidade e mobilidade social.

Ele continua quando o sofrimento psíquico da população negra ainda é frequentemente tratado de forma individualizada, ignorando os atravessamentos históricos e raciais que produzem adoecimento.

Falar sobre o 13 de Maio, portanto, não é apenas revisitar o passado. É discutir o presente brasileiro. É reconhecer que liberdade sem reparação não produz igualdade.

E talvez uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo seja transformar memória histórica em consciência crítica, para que o futuro não continue reproduzindo as violências que começaram muito antes de 1888.

“O 13 de Maio acabou. O 14 de Maio ainda permanece.”

Referências

 – Ministério da Igualdade Racial – Dados sobre população negra no Brasil

 – Atlas da Violência 2024 – IPEA e Fórum Brasileiro de Segurança Pública

 – Tornar-se Negro — Neusa Santos Souza

 – Pele Negra, Máscaras Brancas — Frantz Fanon

 – Lélia Gonzalez — escritos sobre racismo, subjetividade e colonialidade

 – Abdias do Nascimento — pensamento quilombista e reparação

Rebeca Marques é psicanalista clínica, especializada em relações étnico-raciais e cultura afro-brasileira. Artista visual, artesã afrocentrada e fundadora do @institutonas e do Ateliê @madeinatrica, pesquisa os atravessamentos entre raça, subjetividade, arte e sociedade e também faz parte do Coletivo Arte na Garagem

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