A Justiça cassou os direitos políticos do prefeito eleito por oito anos. Você também já viu esse filme, caro leitor? Pois é, eu também. Até quando teremos que aceitar esse tipo de coisa na nossa Bragança?
ACEITAR O QUÊ?
Essa é a pergunta. O prefeito eleito Fernão Dias e sua vice Huguette Theodoro tiveram seus registros cassados por abuso de poder econômico. Agora responda você, econômico leitor: quantos candidatos você conhece que não “abusam do poder econômico”?
O QUE É NORMAL?
Gastar grandes montantes de dinheiro em uma campanha política, muitas vezes de forma desproporcional, é normal? Muita gente acha que sim. Por outro lado, as pessoas não acham normal um candidato apresentar propostas sérias e viáveis, quando “não tem dinheiro” para fazer campanha. Não é novidade pra ninguém que ano após ano, eleição após eleição, aqui na Terra da Linguiça (e em outras terras por esse País do Carnaval) as eleições são decididas à base de favores, churrascos, festas, brindes, combustível.
O QUE SE PODE PROVAR
De que adianta nós sabermos que as eleições se decidem assim, se o que interessa é o que se pode provar? Muito me incomoda essa história. Como vão ficar todas as práticas ilícitas que não puderam ser comprovadas nessas eleições?
E OS VEREADORES?
Quantos dos vereadores, eleitos ou não, gastaram mais do que a moral permite? Ninguém vai falar nada sobre isso? A vereadora eleita, Fabiana Alessandri, por exemplo, gastou quase quarenta vezes mais do que um dos candidatos a prefeito nessa campanha.
CHURRASQUINHO
As eleições foram decididas por 21 votos de diferença e isso pesou na decisão do juiz. No evento do dia 5 de outubro, a dois dias das eleições, no tão falado “aniversário de profissão” do Joca, foi caracterizado o abuso do poder econômico por contar com a presença de setenta ou oitenta pessoas. Então quer dizer que se fosse um churrasquinho “só pros mais chegados”, contando com umas vinte pessoas, Fernão Dias ainda seria o prefeito eleito?
PT X PSDB
Entrando com recurso em nível estadual, Fernão Dias não aguardará o resultado como prefeito, o que também foi decisão do juiz. E pra falar a verdade, dificilmente o PT ganharia o recurso no nosso estado que há anos é dominado pelo PSDB. Nesse sentido, Bragança acabou se tornando um território estratégico na briga pelo espaço em São Paulo. O governador Geraldo está empenhado em não perder espaço por aqui. Se o PT ainda tem alguma chance de assumir a Prefeitura Municipal, ela está em Brasília, onde eles têm a força.
QUEM VAI PERDER
No fim, perdemos todos. Pra começar, certamente, teremos um ano (ou mais) de incertezas sobre quem será o prefeito de Bragança. Perdemos também porque, enquanto cidadãos, não fomos competentes o suficiente pra escolher nosso representante. Perdemos porque mais uma eleição em Bragança foi decidida na Justiça e não no voto. Perdemos porque o coronelismo daqueles que acreditam estar acima das leis não acabou.
QUEM VAI APRENDER?
Fernão ou Frangini? Qualquer um dos dois, dado o resultado das urnas, não teria a maioria da população a seu favor. Politicamente, ambos representam a velha polarização. De um lado os Chedid e de outro os anti-Chedid (ou aquele que foi escolhido como o que poderia ganhar dos Chedid). Será que é disso mesmo que nossa cidade precisa? Enquanto a política for pensada em Bragança apenas dessa forma, não sairemos do lugar. Precisamos, sim, derrotar este modelo político antigo, mas não jogando o jogo deles com as regras deles. Precisamos pensar e fazer uma cidade melhor juntos. Um novo modelo de políticas e de políticos, assim mesmo no plural, no coletivo, é disso que precisamos! Será que um dia vamos aprender a lição?
ISSO É QUE É POLÍTICO
Enquanto isso, do lado de lá, Plínio de Arruda Sampaio recebia, ao menos simbolicamente, seu mandato de volta. Mandato que havia sido roubado nos tempos da ditadura militar. Ao todo, foram 173 deputados cassados pela ditadura, que receberam de volta seus diplomas e seus broches que os identificava como membros do Congresso. Infelizmente, 145 deles morreram antes de terem seus direitos reconhecidos.
PRA FINALIZAR
“Existem verdades que a gente só pode dizer depois de conquistar o direito de dizê-las.” (Jean Cocteau)
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