O Jornal Em Dia conversou com mulheres que fogem do estereótipo social para mostrar que ser mulher é diverso
No dia 08 de março, próxima segunda, se comemora o Dia Internacional da Mulher. Na data, muito se lembra sobre as rosas que “toda mulher gosta de ganhar” e pouco se fala sobre o que significa, de fato, ser mulher. Quando Simone de Beauvoir fala “não se nasce mulher, torna-se”, ela se refere à questão social, e não biológica. Ser mulher implica em diversos fatores, Toda menina, antes mesmo de ter idade suficiente para ser mulher, já carrega o peso do gênero, ao ser proibida de realizar tantas atividades das quais os meninos nunca são questionados. É desde o furo na orelha das bebês até o “senta como mocinha” que as meninas vão percebendo que ser mulher carrega um peso social. E, quando o ser mulher foge do padrão branco, cisgênero e heterosexual, esse peso é ainda maior. O Jornal Em Dia conversou com três mulheres que não preenchem o estereótipo de gênero reconhecido socialmente. A cada uma delas fez as mesmas três perguntas, mudando apenas a última, de acordo com a particularidade de cada uma: o que é ser mulher, quando se reconheceu como mulher e o que é ser uma mulher transexual, negra ou lésbica. Porque, ser mulher, ao mesmo tempo que é algo muito similar é também algo bem particular.
Natália de Miranda Cintra
Natália de Miranda Cintra é uma mulher transgênero, ou seja, não nasceu em um corpo reconhecido como feminino. Foi criada como menino até a adolescência quando, em um primeiro momento, se reconheceu gay. Aos poucos percebeu que, na verdade, era uma mulher. Sua transição de gênero começou aos 18 anos, depois que se tornou maior de idade. Ao contrário da grande maioria das mulheres trans no país, que são rejeitadas pela família e acabam se marginalizando, Natália sempre foi acolhida pelos pais. “Eu estou próxima da expectativa de vida de uma mulher trans”, comenta, lembrando de seu privilégio, ao se comparar com outras que não puderam contar com o mesmo apoio familiar. A expectativa de uma mulher transexual ou travesti é de 35 anos, metade da média nacional dos brasileiros, que é de 70 anos. Se comparada às mulheres cisgêneros, aquelas que nasceram em um corpo reconhecido como feminino e tem expectativa de vida de 76 anos, a diferença é ainda maior, de 41 anos. As mulheres transgênero morrem cedo porque são desumanizadas muito cedo também. Se o machismo no Brasil mata, fazendo com o país seja o quinto em número de feminicídios no mundo, a transfobia mata mais ainda. O Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de transexuais. O caso recente de Lorena Muniz, que foi abandonada sedada em uma mesa cirúrgica enquanto a clínica que se internou para passar por um procedimento pegava fogo, mostra qual é o grau de desumanização pelo qual uma mulher transexual é tratada.
“Eu percebo que ser mulher, às vezes, é estar nesse papel de aconselhar, de acolher, de sempre ter uma outra mulher do seu lado precisando de uma palavra amiga. É também a troca com outras mulheres, porque você sabe que ela passa pelo o que você também passa, mesmo que não da mesma maneira que você. O grande medo da sociedade patriarcal é mostrar o nosso verdadeiro valor enquanto mulher. A gente percebe que muitas mulheres só estão atrás daquele grande homem por conta do patriarcado, senão ela é quem estaria em posição de destaque. Ser mulher é ser incompreendida, principalmente “, reflete. Para ela, esse sentimento de sororidade nem sempre é demonstrado pelas mulheres cisgêneras para as mulheres transgêneras. Mesmo que, no dia-a-dia, a relação que ela tenha com as mulheres cis seja de cordialidade, principalmente no trabalho, onde é profissional da área da beleza, sempre existe aquele receio quando ela entra no banheiro feminino, por exemplo, ou quando se legitima como um mulher, incluive legalmente, nos documentos pessoais. “Algumas têm atitudes tão transfóbicas quanto as de homens. Não aceitam que um direito conquistado por uma mulher trans, como ser incluída na Lei Maria da Penha, não significa diminuir os direitos de uma mulher cis. São poucas as feministas cisgênero, por exemplo, que levam a pauta trans para a discussão. Por isso é tão importante que mulheres como Érica Malungui-nho e Érika Hilton, trans e negras, sejam eleitas para cargos políticos, porque vão, de fato, defender a pauta das mulheres, de todas as mulheres”. analisa.

Francislaine Calazans
Francislaine Calazans é mãe e avó. É pedagoga, candomblecista, representante de Mulheres de Axé, Promotora Legal Popular e presidente da Escola de Samba Acadêmicos da Vila. E é mulher preta. Tudo isso junto, faz ela ser aquela que vê no fato de ser mulher, uma oportunidade “Em todos os sentidos, é desafiador. Claro que eu gostaria que fosse um pouco mais leve, Porém, se o tom da minha pele fosse um pouco mais claro, eu não teria me fortificado tanto na vida. Por tantos obstáculos e humilhações que já passei, hoje eu percebo que a mulher é sem limites pelo fato da luta. E quando eu falo isso, não é só pela minha ancestralidade pessoal, mas de tantas lutas que acabamos assumindo pra gente, de outras mulheres. Uma mulher nunca abandona uma outra mulher, eu tenho isso comigo. Mas a luta das mulheres pretas, ela transcende. As mulheres negras e periféricas estão em uma luta para sobreviver e dar o que comer aos filhos. São lutas que são invisíveis, as pessoas ainda acham que isso não acontece. Essa luta existe em Bragança, a cidade precisa ter um olhar diferenciado para essa mulher, negra e periférica. Existem muitas por aí, que precisam de ajuda. O nosso povo está passando fome. Quando a gente fala da cor da pele, infelizmente, nós temos o maior índice de desemprego, de menor escolaridade, de mais baixo nível social”, reflete.
A desigualdade racial no Brasil ainda reflete o passado escravagista. As mulheres negras são as últimas na escala social. A desumanização é tão elevada quanto a das mulheres transexuais. Se o índice de feminicídio no Brasil é extremamente alto, as maiores vítimas desse tipo de assassinato são as mulheres negras: 75%, enquanto que as brancas são maioria em casos de lesão corporal e estupro. E, mesmo quando a violência é contra os homens, as mulheres negras também são vítimas: as mães pretas são as que mais enterram seus filhos, por mortes violentas. Outro tipo de violência que atinge, na maior parte, as mulheres negras, é a violência obstétrica. Franscilaine conta que foi em sua primeira gestação, ainda jovem, que percebeu o fardo de ser mulher, sobretudo de ser mulher negra. “Eu tinha 17 anos, perdi o bebê, e a ginecologista se sentiu no direito de me dar lição de moral e me dizer que foi melhor assim. Ela achava que eu era só mais uma pretinha que queria ter filho e que não teria recurso para isso? Você entra no estereótipo. Naquela época eu também queria ter uma família da forma que eu tenho hoje. Por que a sociedade quer me impor a forma que eu devo ser mãe? As pessoas não pensam que é um ser humano que está ali. Como você diz para uma mãe que acabou de perder uma criança que foi melhor assim?”, questiona. “É o amadurecer na tristeza que faz a gente se levantar e dizer, eu sou um ser humano, vocês não vão mais me tratar dessa forma. É no susto que você se levanta”. Hoje Francislaine não aceita que lhe digam o que pode ou não fazer e onde pode chegar. “Depois que você passar por esse tipo de coisa, nada mais te abala. Você sabe que vão querer impedir de muitas coisas, mas você segue em frente”.

Maria Izabel Bintacos
Para Maria Izabel Binta-cos, ser mulher implica em muitas coisas e a maioria delas não é boa. “Ser mulher, na nossa sociedade, sempre foi difícil e sempre vai ser. Apesar de eu passar meio camuflada na rua, em relação ao assédio, por exemplo, eu sei o quanto é complicado você precisa ter voz, ter atitude pra conseguir alguma coisa. Ser mulher é já ter que chegar no mundo gritando. Eu não entendia porque ser mulher significava ter que seguir alguns padrões. Por que, quando criança, eu não podia ter um carrinho? Eu queria brincar na rua, ter skate, andar de patins, jogar bola. Desde pequena te dizem que isso não é pra você, que você tem que se comportar, que menina não pode responder”. analisa.
Mesmo que Maria Izabel, como conta, não sofra com o assédio tão diretamente, ela sofre por conta de sua expressão de gênero, e isso não tem nada a ver com sua sexualidade lésbica. O fato de sua aparência não expressar o que a sociedade considera feminilidade, não está ligado ao fato dela se relacionar com mulheres. Muitas lésbicas expressam feminilidade, como Priscila, a namorada de Maria Izabel. E também existem mulheres heterossexuais que não expressam a feminilidade que a sociedade impõe a elas. O que é recorrente na vida dela e de outras mulheres lésbicas consideradas mais masculinizadas, também é desumanização. “Eu entro no banheiro e as meninas começam a me encarar, dizer que vão chamar a segurança. Há também quem diga que sou um homem trans, só não assumi isso ainda. Não, eu sou uma mulher, me reconheço como mulher e quero ser respeitada como mulher”, enfatiza.
“Hoje as mulheres lésbicas tem mais representatividade, nas séries, na mídia. Hoje a gente tem pra onde olhar, então, ser lésbica já não é mais tanto tabu como era antes, em que você apresentava a namorada como amiga. Hoje você vê profissionais de diversas áreas se afirmando lésbicas. Isso é muito importante. Essa representatividade é fundamental”, avalia.
“Tem a pressão, tem os estereótipos, os encaixes que as pessoas querem te colocar, mas é tão bom lutar contra isso e aprender a ligar o dane-se, só ser você, ser o que você quiser e viver a sua vida em paz. Pras meninas lésbicas de hoje, eu acredito que seja mais simples do que foi na minha época. Ainda não é fácil, mas elas já conseguem viver sua sexualidade mais livremente”, fala.
Essa maior liberdade conquistada pelas mulheres lésbicas também é cobrada socialmente pelo patriarcado.Dentro da comunidade LGBTQIA+, elas são as mais atingidas por violências sexuais e estupro. Isso é reflexo da misoginia, ligado à não necessidade da figura masculina nas relações. Os estupros sofridos pelas mulheres lésbicas, na maioria, acontecem dentro de casa. São os chamados estupros corretivos, “para aprender a gostar de homem”.
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