20 de março de 2026
(11) 4033-8383 - (11) 9.7417-6403 -
Geral

Uma vida Off

Vivemos mesmo dias estranhos, em que é comum ter centenas de amigos virtuais, dentre os quais nem ao menos uma dezena continua merecendo esse status fora da rede. Gente que a gente não conhece, gente que nem tratamos como gente de fato, porque só as vamos acumulando em números, e com as quais na maioria das vezes nem mantemos contato algum. Curtimos fotos de desconhecidos e nos negamos a dar atenção àqueles que estão ao nosso lado. Há algo de muito errado nisso. Parece-me mesmo que as prioridades se inverteram, e o que não é real passa a ocupar tempo demais do nosso tempo, enquanto que pessoas e sentimentos reais são colocados de lado, em nome não sei de qual ideologia pós-moderna e tecnológica.

Corremos o risco de perdermos a noção do que sejam as relações humanas, ao menos aquelas que se dão fora do ambiente virtual, e que mesclam em sua fórmula todas as nuances que ser humano implica. Sim, porque as relações humanas de fato não podem se limitar a contatos superficiais e por isso mesmo pseudo-contatos. Não, elas implicam envolvimento, e envolvimento, necessariamente, implica conhecer o outro, suas fraquezas, virtudes, falhas e tudo mais. Relacionar-se não é tão fácil quanto sugerem as redes sociais. É preciso empenho para cativar o outro, curtidas não bastam, afinal, estamos falando de gente e gente que sente, que tem alma.

Viver on é absurdo demais para mim, opto então, por uma vida off. A vida fora da rede, que nos enreda com propostas absurdamente fáceis, eu quero a vida real e todas as dificuldades e gozos que só ela pode oferecer à aventura humana aqui na Terra. Quero não precisar de emoticons para expressar aquilo que sinto, que as pessoas possam ler minha face, quero compartilhar alegrias abraçando aqueles a quem amo e não clicando, quase que automaticamente num ícone. Quero curtir o que a pessoa diz e comentar aquilo que nelas há de mais admirável sem precisar recorrer à imagem de um polegarzinho, que a meu ver, facilita a vida daqueles que não gostam de escrever, ou preferem não se expressar por escrito. Afinal, pra que tudo isso? Basta curtir!

Quero a vida off, porque só ela merece ser chamada de on. É nela, e não dentro da rede, que as melhores coisas acontecem. A vida existe mesmo e se movimenta e produz as emoções necessárias à nossa sobrevivência enquanto gênero humano, fora dela, na cadência do dia a dia, nas trocas de experiências feitas face a face, no toque que suplanta qualquer tentativa por mais bem intencionada que seja de demonstrar afeto.

E que o computador nos sirva de acessório apenas para as exigências da pós-modernidade, mas que a vida, ah, que a vida seja off!


© 2026 Jornal em Dia

Contate pelo WhatsApp