A frase marcante que virou lema dos Direitos Humanos no contexto do Regime Militar, especialmente no Brasil, “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”, nos convida a refletir sobre a importância e necessidade de lembrar de algo para que esse algo nunca mais aconteça de tão ruim e cruel que foi…
Talvez valha para lembrar que, no último dia 11 de março, rememoramos seis anos do início da pandemia de Covid-19 decretada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) naquela manhã do início de 2020.
Foram dias e dias de muitas incertezas, sofrimento, informações desencontradas, o que ceifou a vida de milhares de pessoas mundo afora. O Brasil foi um dos países mais impactados, com o maior número de mortes em números absolutos: foram cerca de 700 mil pessoas, segundo dados oficiais e registrados na época.
Especialistas de várias áreas, especialmente da saúde, instituições de ensino e pesquisa, organismos internacionais, dentre outros, são unânimes em reconhecer que poderíamos ter tido uma outra realidade se estivéssemos em sintonia com as medidas de prevenção e contenção do vírus propaladas pela própria OMS e vários segmentos da saúde, gerindo a crise sanitária de modo ético, responsável e atento.
Longe disso, o governo negacionista daquele momento imprimiu um trato, no mínimo, perverso diante da maior crise sanitária da história recente. Não era “uma gripezinha” e não havia motivos para conduzir as ações como se fosse uma brincadeira. Ao minimizar a gravidade do vírus, estimular tratamentos precoces sem eficácia e base científica – como o uso da famigerada cloroquina, por exemplo –, ignorar medidas básicas como o distanciamento social e lockdowns; ao contrário disso, adotando a chamada “imunidade de rebanho” para propagar a doença, criando uma espécie de imunidade “natural”, além do próprio negacionismo à vacina, dentre outros, o governo assumiu o risco de matar. E pior: que algumas vidas – como as da classe trabalhadora – valem menos que outras!
São memórias…
Memórias que precisam estar vivas, que não podemos esquecer, e que devem ser contatas geração por geração de modo a dimensionarmos que nossas escolhas têm consequências concretas em nossas próprias vidas.
Lembranças que teimamos em recordar para que nunca mais se repita, ainda que travestidas de outros episódios do cotidiano.
No campo político, a provocação vai no sentido de lembrar o que as pessoas que elegemos na última eleição fez de importante e útil para país. Com o que seu (sua) candidato (a) eleito (a) tem se ocupado para representá-lo? Afinal, temos (e tivemos) pautas importantes apreciadas nas casas legislativas, no caso em âmbito nacional, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais, que foi aprovada; e o fim da escala 6 por 1, que segue em aberta para ser analisada – dois pontos só a título de exemplo – o que nos coloca como corresponsáveis em relação a quem delegamos o papel de tomar decisões que vão impactar diretamente nossa vida.
Rememorar o que já aconteceu também deveria servir como uma espécie de “lição”, que deixa algum aprendizado sobre algo vivido e a nossa avaliação se foi algo bom ou não, se desejamos que se repita ou não…
Memórias devem ser preservadas, porque elas contam a nossa história, por mais dolorida que seja. Elas permitem construir aprendizados, compartilhar experiências, aprimorar habilidades e entender o caminho trilhado – podemos, inclusive, avançar ou retroceder a partir do modo como lidamos com nossas memórias.
Se desejamos que algo nunca mais aconteça mesmo, recuperar nossa memória de como esse algo foi conduzido pode ser um caminho para que, de fato, ele não se repita.

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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