Dia desses eu aguardava minha vez em uma fila e, enquanto esperava, comecei a observar discretamente as pessoas ao meu redor. Não era uma fila particularmente grande, mas havia algo curioso acontecendo: quase todos estavam olhando para o celular. Alguns deslizavam o dedo pela tela com rapidez, como se buscassem algo urgente. Outros apenas passavam o tempo entre uma rede social e outra. Havia também aqueles que digitavam com expressão concentrada, como se estivessem em conversas importantes. No meio de tudo isso, algo simples se destacava: ninguém estava realmente ali. Fisicamente, sim. Mas mentalmente, cada um parecia estar em outro lugar, em uma conversa distante, em uma notícia, em um vídeo curto que logo seria substituído por outro.
Essa cena banal me fez pensar em algo curioso sobre o nosso tempo. Vivemos em uma época em que o mundo parece falar o tempo todo. Notícias chegam a cada minuto, opiniões surgem de todos os lados, mensagens aparecem sem cessar. É como se estivéssemos permanentemente cercados por um grande barulho, não de sons, mas de informações, estímulos e pensamentos.
Talvez por isso tantas pessoas tenham a sensação de que a mente nunca descansa. O dia termina, o corpo se deita, mas a cabeça continua funcionando como se ainda estivesse no meio de uma conversa interminável. Pensamentos se acumulam, preocupações aparecem, situações do passado retornam. Às vezes, criamos diálogos que provavelmente nunca acontecerão. A psicanálise observa esse fenômeno com atenção. Uma de suas descobertas mais importantes é que nossa mente raramente está em silêncio. Há em nós um fluxo constante de ideias, lembranças, desejos e inquietações.
O problema talvez não esteja no fato de pensarmos, mas no fato de que quase nunca encontramos espaço para escutar aquilo que pensamos. O ritmo da vida contemporânea reduziu esses espaços. Estamos sempre ocupados com algo: trabalho, compromissos, mensagens, tarefas. E quando surge um pequeno intervalo, logo o preenchemos com o celular, a televisão ou algum aplicativo. O silêncio, para quem se acostumou ao excesso de estímulos, pode até parecer desconfortável, como se algo estivesse faltando.
Mas o silêncio não é ausência. Ele é espaço. É nele que certas coisas começam a aparecer: um pensamento ainda confuso, uma emoção que precisava de tempo, uma percepção nova sobre algo vivido. Na clínica psicanalítica, muitas vezes é justamente no silêncio que algo significativo acontece. Depois de falar, a pessoa pausa e, nesse intervalo, surge uma lembrança, uma associação inesperada, algo que talvez estivesse guardado há muito tempo. O silêncio não interrompe o pensamento. Ele o aprofunda. Talvez por isso seja tão difícil encontrá-lo hoje. Vivemos em uma cultura que valoriza a velocidade, a produtividade e a ocupação constante. Sempre parece haver algo a fazer, responder ou acompanhar. No meio disso, a experiência de simplesmente estar consigo mesmo vai se tornando rara.
No entanto, quando conseguimos diminuir um pouco o ritmo, mesmo que por alguns minutos, algo muda. A mente desacelera. Certas preocupações perdem intensidade. Algumas perguntas começam a aparecer com mais clareza. É nesses momentos que percebemos que dentro de nós também existe uma voz. Uma voz mais tranquila, mais discreta, que dificilmente se manifesta quando o mundo está barulhento demais. Ela não grita. Apenas espera.
Talvez seja essa voz que tantas pessoas procuram quando tentam se entender melhor, encontrar sentido para suas inquietações ou compreender o que estão sentindo. Em um mundo que fala o tempo todo, reaprender a escutar pode ser uma tarefa difícil, mas talvez seja também uma das mais importantes. Porque, quando o barulho diminui, descobrimos algo essencial: dentro de cada um de nós ainda existe um espaço que pode ser habitado com calma. E talvez seja justamente ali que algumas das conexões humanas mais profundas começam – inclusive a que temos com nós mesmos.
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