Abril entra em cena com aquela brincadeira de longa data, passada de geração em geração, que nada mais é do que contar uma mentira para alguém, reproduzindo a tradição de inventar ou aumentar uma história, fazendo a pessoa de boba e, depois, ao revelar a farsa, cair na gargalhada dizendo: 1º de abril, dia da mentira!
Historicamente, não há um registro fidedigno onde e quando exatamente essa tradição começou. Sabe-se que vem de longe e há tempos…
Na Europa, essa tradição existe ao menos desde o século XVI. No Brasil, esse costume data a partir das peripécias do jornal mineiro “A Mentira”, que, logo em sua primeira edição, em 1º de abril de 1828, teria noticiado em matéria de capa a morte de Dom Pedro I, algo que na verdade só viria a acontecer alguns anos mais tarde, em 1834. Desde então, o 1º de abril ficou conhecido como o dia da mentira e se popularizou no país!
Enquanto uma brincadeira é feita de forma inofensiva, a mentira contada acaba, via de regra, virando uma piada e ao final tudo fica bem. O problema é – e tem se ampliado – quando a mentira é usada enquanto instrumento de desinformação. Isso, aliás, não tem nada de engraçado e, ao contrário, poderia (ou deveria) ser visto e tratado como algo criminoso, já que mentiras mal-intencionadas podem causar muito mal e gerar muitos prejuízos, seja de modo individual – com riscos diretos à vida e à saúde – seja enquanto sociedade, podendo levar a escaladas de violências e ameaças à própria democracia.
E justamente por estar em alta e na moda, a prática da mentira parece estar se tornando cada vez mais popular, corriqueira e reproduzida de tal monta que desfila por aí como se fosse uma verdade, ou um fato real, criando uma narrativa ou história que atende aos interesses de quem a reproduz. Contar mentiras hoje em dia tem se tornado tão comum, que a pessoa, ao deparar-se com certos conteúdos, chega a duvidar, por vezes, de si mesmo e do conhecimento que outrora se tinha dada a contundência do fato reproduzido.
Na sociedade do espetáculo – termo cunhado pelo filósofo francês Guy Debord (1931-1994), onde, dentre outras análises feitas, a aparência vale mais que o conteúdo – contar mentiras pode dar palco e gerar likes. A propagação de conteúdos falsos não se preocupa com a fonte dos fatos. O importante é que o conteúdo se torne popular, seja reproduzido e ganhe o mundo, mesmo porque essa prática pode ser muito rentável, gerando interação e ditando comportamentos!
Não há compromisso – nem ético, nem político – com o fato concreto, porque os boatos que se alastram cumprem seu papel que para além da desinformação, criam uma espécie de “pânico moral”, fomentam o ódio e a violência, impossibilita qualquer forma de diálogo – especialmente pela contundência construída – e vai por aí se retroalimentando.
Quem nunca ouviu falar que vacina continha um chip chinês? Ou que o Brasil iria virar uma Venezuela se certo candidato fosse eleito? Ou ainda, a distribuição de “kit gay” nas escolas?… e por aí vai: que o Brasil virou um país comunista, vive um duro regime ditatorial, que não há liberdade de expressão etc. etc. etc…
Já dizia o ditado: “Se não fosse trágico, seria cômico”!
Se fossem mentiras feitas para o 1º de abril, poderíamos cair numa grande gargalhada coletiva, mesmo que uns e outros não vissem graça nisso. Ocorre que isso vem se tornando parte do sistema, um meio – muito eficaz, diga-se de passagem – de conduzir opiniões e ditar regras. Algo dotado de método para ludibriar quem não ousa questionar o vê e ouve, colaborando, sobremaneira, para manter a estrutura de país que temos: desigual, racista, machista, concentrador de renda etc.

É fato que essa realidade não se restringe ao universo virtual, mas, sem dúvidas, encontra nele – enquanto uma espécie de “terra sem lei” – terreno fértil para a propagação desenfreada de mentiras ou nos termos atuais de “fake news”. A regulação desses espaços é condição central capaz de inibir, restringir e limitar essa prática e, quem sabe, enquanto efeito colateral devolver a prática de mentiras somente ao 1º de abril!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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