“Uma mentira contada mil vezes torna-se uma verdade”.
Quando menina sonhava se casar, ter filhos e uma família da qual se orgulhar e à qual se dedicar quase que integralmente. Cresceu sendo ensinada a obedecer ao pai, depois, ao marido. A autoridade sempre vinda de uma figura masculina, como se o falo fosse sinônimo de poder. E de fato, não é?
As tarefas domésticas, sempre femininas, como se aos irmãos homens lhes crescesse uma vagina no lugar do pênis se ousassem se aproximar da pia para lavar as louças que haviam sujado. Nem mesmo a mais nociva das bactérias presentes no detergente podia conseguir tal proeza…
Mas eles sequer sabiam qual era a textura do produto de limpeza, não sabiam da sensação de lavar louças no inverno, nem em qualquer outra estação. Isso não era serviço pra eles, que ostentavam o privilégio de serem homens numa sociedade doentiamente patriarcal.
Cresceu subjugada, como a maioria de suas semelhantes. Tornou-se mulher, como acontece com quase todas as meninas, antes mesmo que se deem conta.
Sofreu a vida toda a violência de ser mulher, num país que cultiva um ódio ancestral contra o feminino.
Por isso, e esse já é motivo mais do que suficiente, não acreditou no que ouvia, quando assistiu à entrevista do famoso ator na TV. A falácia que saía de sua boca era absurda demais, perigosa demais, em dias já tão perigosos para as mulheres. Por isso, uniu-se a outras num coro uníssono contra mais essa violência, agora em forma de fake news.
Não, nós não acreditamos nessa mentira, nem iremos permitir que ela siga sendo reproduzida. Nós estamos absolutamente fartas de sermos alvos de mentiras. Essa mentira, em específico, não fere apenas a todas nós, mas fere a toda a sociedade, porque a coloca diante de um dado errôneo com consequências muitíssimo graves.
Dizer que mulheres matam mais homens que homens matam mulheres no país que é campeão de feminicídios é, no mínimo, leviano. É desinformar da maneira mais cruel, fazendo crer que a vítima é na verdade o algoz.
Em uma sociedade patriarcal, marcada pelo ódio contra as mulheres, cujos alicerces se fundamentam no sangue de nossas ancestrais e contemporâneas, uma fala dessas não pode ter lugar.
E não se trata apenas de desinformação, mas de um discurso pré-programado para nos atingir e perpetuar esse estado de culpabilização da mulher dentro da sociedade.
Basta lembrar que quase sempre, em casos de importunação ou violência sexual, a mulher (vítima) é culpabilizada. Porque escolheu uma roupa curta ou “provocante”, porque estava na rua tarde da noite, porque escolheu um percurso que, sabia, tinha grande concentração de homens…
Nossa roupa nos condena, nosso itinerário nos condena, nossas escolhas quase sempre nos direcionam a nossos opressores. Mas, não, nossa roupa, itinerário e escolhas não são convites!
Basta de culpabilizar a vítima pela violência de seu agressor! Basta de ferir-nos com todo tipo de arma, inclusive, com a mentira! Que a frase com que inicio essa reflexão nunca, nunca se valide!
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