30 de maio de 2026
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Olhar Social

Se de um lado, o frio não chega, em outro, o calor é extremo!

O livro “A Queda do Céu”, escrito pelo xamã Yanomami Davi Kopenawa juntamente com o antropólogo francês Bruce Albert, traz uma espécie de narrativa autobiográfica do indígena que, dentre seus vários relatos, faz uma contundente denúncia sobre a destruição da Amazônia. Na crença xamânica, se os espíritos forem ignorados e a natureza continuar a ser devastada, o céu desabará sobre a humanidade!

Isso em razão da exploração desenfreada dos recursos naturais, o que só intensifica a crise climática em curso. Se de um lado, o frio não chega, em outro, o calor é extremo!

Como, a título de exemplo, o calor intenso que nos países europeus já causaram inúmeras mortes, com temperaturas que medem 15ºC acima da média. Já nos países mais pobres – onde as consequências da crise climática são mais intensas e mais perversas – a fome, o deslocamento em massa e o aumento da pobreza extrema se tornam uma realidade cada vez mais presente, nos mostrando que a mesma crise não é igual para todos e as condições de enfrentá-la também não são as mesmas.

A estrutural destruição do meio ambiente e a relação predatória do homem branco com a natureza, sua fauna e flora – de várias formas, intensidades e dimensões, seja nas cidades com a destruição de áreas verdes para levantar arranha-céus, seja a derrubada de florestas, poluição e contaminação de rios e nascentes, atendendo a todo tipo de interesse – está levando o planeta ao ecocídio, na cosmologia do povo xamã. Isso mesmo: uma espécie de assassinato do ecossistema.

Estamos, pouco a pouco, matando o meio ambiente, e daí não haverá mesmo céu que se mantenha de pé, quiçá a espécie humana!

Enquanto uns tentam, a duras penas, chamar a atenção do mundo sobre esse assassinato em curso e lutam para que algo seja feito a tempo, como cientistas, pesquisadores, ativistas ambientais dentro e fora do país; outros seguem o curso da destruição, ignoram a ciência e negam haver uma crise climática global.

No Brasil – país que conta um dos congressos mais reacionários, conservadores e liberais de sua história – o trato da pauta ambiental não tem sido prioridade e quando o é, os passos são para traz. Realidade essa que, neste ano, podemos mudar ao elegermos representantes efetivamente comprometidos com questões de interesses comuns, como o debate ambiental. Não cabe no campo político a tão famigerada defesa da família, questões de cunho moral ou religioso, entre tantas outras que são questões de cunho privado.

Recentemente, em meados de maio deste ano, tramitou na Câmara dos Deputados um pacote de Projetos de Lei (PLs) que mostram o retrocesso no país no trato a questão ambiental. O combo pautado busca fragilizar a proteção ambiental em diferentes frentes no país, algo visto com muita preocupação por órgão como o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Dos cinco projetos que tramitam, quatro já foram apreciados pela Câmara dos Deputados e agora seguem para o Senado.  

Em palavras bem diretas e dramáticas: se nada for feito efetivamente a tempo de reverter a crise climática, não sobrará nada, nem mesmo os seus algozes: o ser humano.

Tudo isso pra dizer que a pauta ambiental urge ser assumida seriamente por toda uma sociedade e isso vale para todas e todos, especialmente por políticos que formulam e aprovam leis e que podem, a partir delas, colaborar no enfrentamento do descompasso climático que vivemos, onde o frio não faz frio e o calor é literalmente de matar. O parlamento é lugar sério, que requer pessoas comprometidas com as pautas que interessam e impactam na vida comum e coletiva, como a pauta ambiental. Não é lugar da lacração, zueira, reduto para formulação de fake news, espaço de brincadeira e formulação de piadas, mesmo porque o tempo está se esgotando e a natureza já vem dando seus sinais; ela está nos avisando: o céu vai desabar!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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