06 de junho de 2026
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Crônicas de um Sol Nascente

Matsuken Samba

Há uma cena icônica na tevê japonesa, que é também um sucesso nas redes sociais: o dia em que o craque português Cristiano Ronaldo, em visita ao país, foi recebido em um programa de variedades local com um show de… samba!

Uma recepção que, apesar de calorosa, deixou Cristiano literalmente sem saber o que dizer ou fazer. Não sei se os organizadores do programa se tocaram a respeito da “bizarrice cultural” que acabavam de cometer, mas o samba seguiu rolando até o fim. Pobre CR7! Um cartão vermelho, tenho certeza, doeria menos.

De minha parte, quero acreditar que os japoneses fizeram isso menos por ironia do que por uma pueril ignorância. Porque, falando a verdade, não é raro para muitos japoneses fazerem uma salada quando o assunto é outras culturas.

Por exemplo, surgiu por aqui no início do ano 2000 um estilo de dança que fez (e ainda faz) muito sucesso em tudo que é festa japonesa: o Matsuken Samba. Idealizado por Ken Matsudaira – um ex-ator de séries televisivas de samurais –, trata-se a referida dança de uma divertida mistureba latina. Nela, Matsudaira, trajando um quimono, adentra o palco cercado de mulheres fantasiadas como passistas brasileiras. E, para terminar o show, nosso bravo samurai dançarino ainda solta um sonoro “Olé” com um estranho acento espanhol.

Só falta mesmo lascar um tango lá pela metade da apresentação…

Eu particularmente me divirto à beça com o X-tudo que eles fazem em relação à música latino-americana (e espanhola, de quebra). Como se fôssemos todos um grupo de festeiros: que vivem sambando e “bailando una salsa”, tudo ao mesmo tempo.

E antes que surjam duras críticas aos japoneses, quero recordá-los de que também nós, brasileiros, costumamos fazer nossas saladas culturais. Por exemplo, chamando de turcos a todos do mundo árabe, ou achando que coreano e chinês é tudo japonês….

Em 2010, quando fomos passar um ano no Brasil, minha esposa ficou em choque ao testemunhar, enquanto assistia a um dessas maravilhas da tevê aberta tupiniquim, o apresentador soltar esta: “a de que os japoneses deveriam parar de comer cachorros no Brasil”. Santa ignorância, Batman, sabendo-se que o consumo da carne canina é próprio da Coreia do Sul – e isso antigamente, vale frisar, porque tal prato, hoje em dia, também está banido do cardápio nacional, como bem me explicou uma de minhas alunas coreanas.

De modo que “etnocentrismo” (ou tratar outras culturas com desprezo) é mesmo uma praga universal. E como nem sempre podemos educar os ignorantes, resta-nos somente dois caminhos: ou ficarmos irritados, ou levar no bom humor.

De minha parte, prefiro sambar enquanto grito um “olé”.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários, é também roteirista de cinema. Em 2024, foi o roteirista vencedor do “WriteMovies Script Pitch Contest”, nos Estados Unidos. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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