A igreja toda cheirava a incenso e esperança. A celebração de Corpus Christi trazia de volta a realidade do Cristo vivo e presente. Na liturgia, e não apenas nela, no dia a dia de todo aquele que crê no filho de Deus.
A igreja cheirava a flor, como se a própria natureza também celebrasse com o que tinha de melhor a magnífica presença de seu criador.
A igreja cheirava a uma mistura de perfumes, todos os fiéis arrumados para o evento da celebração da vida do salvador de suas almas.
A igreja cheirava à vida, enquanto lá fora, os dias maus anunciavam sentenças de morte. Quase sempre no inverno, a presença do Cristo ressurreto vem nos lembrar da necessidade de sermos também vida na vida de nossos semelhantes.
A menininha esperta observava tudo com atenção e quase diligência. Nada, absolutamente nada passava despercebido a seus olhinhos desejosos de conhecer o mundo: a roupa pomposa do sacerdote, as velas que iluminavam a escuridão, tal qual aprendeu fez o próprio Cristo ao nascer nesse mundo, a fumaça impertinente que subia feito cobra pelos incensários e transformavam o lugar numa espécie de atmosfera muito irreal e mística. A tosse e os espirros de muitos fiéis, mães chamando à atenção seus pequenos pouco comportados, afinal, a ocasião pedia respeito.
“Deixai vir a mim os pequeninos”, ela pensava e ria.
Já sua mãe, até se esquecera de sua presença, por tão absorta que estava à cerimônia, por tão quieta que estava a menina.
Olhava os vitrais multicoloridos e gostava do que via. Imaginava que o Céu, de onde veio Jesus e para onde iremos também um dia, devia ser um lugar tão colorido quanto. Muito divertido, aliás.
A seriedade do momento não corroborava com essa sua ideia, mas no fundo, ela sabia que Jesus era adorável, simpático, extrovertido e sobretudo… amava crianças!
Percorreu também o teto da igreja com seus olhinhos desbravadores, viu nele todo o sofrimento do amigo muito querido. Ficou com dó de Maria, chorando aos pés da cruz do filho. Imaginou, como só as crianças conseguem fazer, como seria se ela mesma morresse e sua mãe tivesse que assistir. Um arrepio de dor sincera percorreu todo seu corpinho infantil.
Foi só então, que resolveu olhar através da porta grande e suntuosa do templo. Lá fora, uma névoa tomava conta da cidade, era sempre assim nas noites de junho. E era como se essa névoa a atraísse, despertando ainda mais sua curiosidade para o que ela ocultava.
Sem que a mãe percebesse, foi se afastando aos poucos dela, deixou o banco lentamente, abaixou-se para passar despercebida por entre a multidão que agora já acumulava-se em pé aos fundos da igreja.
Ajeitou a touca de tricô com que vovó lhe presenteara na cabeça, fechou ainda mais o casaco, e saiu pela porta.
Passos depois, a descoberta que a paralisou. Em meio ao frio cortante de junho, em meio à névoa que cegava, um corpo jazia no chão de pedra.
Aproximou-se, com medo e vergonha. E com convicção pueril, declarou tão alto, que a missa toda parou para ouvi-la:
– É o corpo de Cristo!
E chorou, abraçada a ele, tal qual Maria.
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