13 de junho de 2026
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Olhar Social

O desafio é grande e a luta segue…

A compreensão popular que diz que construir algo bom dá muito trabalho e leva muito tempo; a desconstrução ou destruição, ao contrário, costuma ser muito rápida, danosa e pode demorar muito para ser reconstruída, quando isso é possível!
E é bem essa a sensação ao olhar para o atual quadro de vacinação do país.
Historicamente, o Brasil, em seu Programa Nacional de Imunização (PNI), foi se consolidando como uma grande referência mundial nas ações de vacinação da população, garantindo acesso universal, gratuito, territorializado a todos contra doenças transmissíveis em várias etapas da vida.
Realidade essa que seria, no mínimo, uma conquista imensurável, dados os inúmeros desafios que acumulamos, muitos dos quais enquanto problemas estruturais, fruto do nosso processo sócio-histórico de formação e manutenção das relações sociais no país.
Enquanto um pilar da saúde pública no país – gerido pelo Ministério da Saúde desde 1973, quando foi instituído no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) – o Programa Nacional de Imunização conta com inúmeras vacinas de rotina, as quais compõe o calendário anual de vacinação, além de outras específicas asseguradas a grupos especiais, como para pessoas vivendo com HIV, em tratamentos de algumas doenças, com condições e coberturas de comorbidades, além das vacinações estratégicas de imediata atenção, como foi no caso da Covid-19.
Com gestão estratégica de longo alcance, o PDI tem condições e capacidade para imunizar a totalidade da população do país, como é previsto. E antes de 2016, os seus percentuais contavam com elevado índice de adesão, chegando ou atingindo toda população brasileira para alguns imunizantes. Hoje, a adesão às campanhas de vacinação conta com um percentual em torno de pouco mais de setenta por cento e isso tem se mantido, com picos de ampliação e queda, enquanto o índice ideal seria, segundo a Organização Mundial da Saúde, algo em torno de noventa e cinco por cento.
Essa estagnação puxando para baixo tem estreita relação com o movimento “antivacina”, com o negacionismo à ciência e com a reprodução de desinformação, o que ganhou muita força durante o governo do ex-presidente do país entre 2019-2022, que não media esforços para reproduzir fake news, desestimular o cuidado exigido durante a pandemia e negar tudo o que a ciência orientava, num dos períodos mais desafiadores da história recente.
O dano causado daquele momento é sentido até hoje.
Isso porque, primeiro, mesmo o país contando com grande oferta de imunizantes e reiteradas campanhas de vacinação, não voltou aos percentuais anteriores de maior cobertura vacinal e, segundo, inúmeras mentiras e desinformação seguem sendo reproduzidas e tomadas como verdade, mesmo sendo confrontadas com tantas outras informações corretas veiculadas.
As mentiras propaladas foram amalgamadas e cristalizadas de tal modo, em alguns grupos da sociedade, que nada parece atingi-las, diga o que disser!
Exemplo disso são as recentes ampliações da campanha da gripe contra o vírus Influenza, deste ano de 2026, porque o público prioritário não foi atingido. Isso tem acontecido, em grande medida, justamente pela reprodução de todo tipo de desinformação: “a vacina mata”, “tem chip para espionar a pessoa”, “não resolve nada, porque se fica doente do mesmo jeito” e por aí vai… e quando se vê alguém reproduzindo esses boatos, sempre há algum conhecido para citar como exemplo.  
O desafio é grande e a luta segue…
Segue para que consigamos descontruir as mentiras reproduzidas cotidianamente. Mentiras de toda ordem, especialmente – como em destaque nesta reflexão – em relação às vacinas. Mesmo porque vacinar-se é um ato concreto do cuidado de si e de quem está à sua volta, num espírito de coletividade, algo que parece tão demodé nos dias atuais, em que imperam o individualismo e a inconsciência…
Segue ainda para que construamos memória coletiva do que implica governos negacionistas e todo mal que eles podem causar, como a destruição lenta e gradual de algo que parecia consolidado, como o Programa Nacional de Imunização do país, mesmo depois do seu término…
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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