08 de agosto de 2026
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Olhar Social

Estamos preparados?

Ele chegou, isso é certo, e vai se intensificar com os passar dos dias. Estamos preparados para recebê-lo? Afinal, é de bom tom, dizem, que nos preparemos quando vamos receber algo ou alguém!

Fato é, que os meios de comunicação já vêm alertando, segundo a projeção do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que em 2026 o fenômeno climático El Niño – que já vem dando as caras desde junho no país, podendo se estender até início de 2027 – irá gradativamente se intensificar com os passar dos dias.

De modo concreto, a previsão dos próximos meses – cujo pico tem sido anunciado entre outubro e dezembro deste ano – é vivermos no país um aumento considerável das temperaturas, para além do que já estamos vivenciando, podendo levar a ondas de calor, incêndios florestais e redução das chuvas. Isso pode dificultar o abastecimento de água, especialmente nas regiões norte, nordeste e norte do centro-oeste, as quais já acumulam históricos de seca e estiagem severas, ao contrário do que já vem ocorrendo na região sul do país, que seguirá com previsão de excesso de chuvas, acarretando grandes enchentes.

Um verdadeiro desiquilíbrio ambiental diretamente relacionado à crise climática em escala global. A mãe terra não para de dar sinais que não aguenta mais tanta exploração, extração desenfreada e atentado que tem vivido!  

Agora, a pergunta que fica é: como o poder público está se preparando para essa realidade em curso? Estamos preparados?

A Organização das Nações Unidas (ONU) tem tratado o El Niño como um alerta climático urgente, o que demanda do poder público de modo direto se planejar para enfrentar o fenômeno, buscando, dentre outros, mitigar suas consequências e impactos, a partir de ações céleres e ágeis!

Se o enfrentamento sério e responsável, tanto para lidar com o El Niño, que está batendo à nossa porta, quanto para barrar a crise climática em curso, requer medidas amplas e estruturais – como a extinção do uso de combustíveis fosseis e sua consequente transição para fontes renováveis, além de apoio as áreas e países mais pobres –, é certo que medidas próximas de nós e do nosso cotidiano podem ser construídas de forma imediata. 

Como exemplo, podemos citar a instalação de bebedouros públicos com água potável distribuídos em várias regiões da cidade, mesmo porque a água deve (ou deveria) ser assegurada a todas as pessoas de modo amplo, universal e irrestrito. E dado o aumento da temperatura anunciado, urge que as pessoas que vivem e trabalham nas ruas possam acessá-la de modo direto e constante. É impossível, para qualquer ser vivo, viver sem água!

Outras medidas próximas de nós também são cabíveis nesse contexto, como o plantio, cuidado e a poda de árvores nas “selvas de pedras”, especialmente nos centros urbanos, mas não só; é possível efetivar o reflorestamento e cinturões verdes – ou pequenas florestas – ao entorno de áreas urbanas ou em regiões desmatadas. É comprovado que lugares arborizados permitem reduzir o impacto do calor.

Também é possível pensar e construir uma rede – especialmente em âmbito municipal, contando com o apoio de estados e da própria União – de coleta seletiva, reciclagem e reaproveitamento de produtos descartáveis, bem como de produtos orgânicos. Quase tudo que é tratado como lixo pode ser reaproveitado. Mas isso demandaria contar com um processo amplo de educação ambiental, desde a escola até em formato de campanhas educativas sobre o processo de reciclagem; e seguiria com um conjunto de medidas que de fato tratem do lixo produzido, como coleta seletiva regular, contêiners distribuídos pela cidade com separação dos produtos, cooperativas de reciclagem, entre tantas outras medidas cabíveis no nosso cotidiano que seriam, na verdade, da envergadura de uma política pública que elevasse a pauta ambiental ao patamar de prioridade, o que ainda não acontece!

Só que se não acontecer, viveremos dias cada vez mais tensos com o anúncio de fenômenos climáticos cada vez mais severos, cujas consequências podem ser catastróficas, quiçá imprevisíveis, se não estivermos ao menos preparados!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.


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