Uma das perguntas que os meus alunos mais me fazem é esta: “Há quanto tempo o senhor mora no Japão?”. Que, aliás, também é uma das indagações mais comuns feitas a todo estrangeiro por aqui. E quando lhes respondo que “há vinte e cinco anos” (cheguei aqui em outubro de 2001), completo brincando: “Watashi wa hotondo Nihonjin”. Ou seja: sou quase um japonês.
A brincadeira, porém, tem um quê de verdade. Explico: no próximo dia vinte de setembro, completarei cinquenta e um anos de idade. De modo que, levando em conta que cheguei aqui ainda jovem, com vinte e seis anos apenas, sim, posso dizer que metade de minha vida tem sido em solo nipônico.
E não é só uma questão de tempo, mas também de adaptação. Por exemplo, hoje, estou plenamente integrado à sociedade japonesa: possuo visto permanente no país – o que me concede os mesmos direitos e obrigações de um cidadão japonês (exceto o de votar – o que, aliás, não me faz falta alguma). E, para além dos aspectos legais, tenho o mais importante de tudo: uma família japonesa (e isso incluindo, claro, as gerações futuras, que não mais terão a nacionalidade brasileira – ou seja, em meu clã, serei o último a portar o temível passaporte tupiniquim… Ufa!).
Mas, bem, resumindo a ópera: já estou enraizado no Japão. Tão enraizado que os meus laços com o Brasil vão se tornando mais tênues a cada dia de passa. Hoje, para falar a verdade, o meu único motivo para ir ao País do Carnaval é poder abraçar meu pai, em Manaus. No mais, não tenho muito o que fazer na Terra Brasilis…
Não que eu deteste o país onde nasci – longe disso. Só que, infelizmente, jamais encontrei lá o meu lugar. E, como se sabe, é da natureza humana buscar sempre a felicidade, seja lá onde for.
Aliás, a respeito do tema “insatisfação em relação ao lugar onde nascemos”, gosto muito da frase do monge budista Jikisai Minami: “A flor pode não florescer onde foi plantada”.
E foi exatamente isso que eu fiz há vinte e cinco anos: busquei um lugar onde minha felicidade pudesse florescer. Porque, sim, no Brasil, sempre me senti aprisionado à tristeza e às desilusões, de modo que a bolsa de estudos para o Japão acabou sendo a minha “tábua de salvação”.
Se no Japão encontrei o Paraíso? Claro que não. Isso não existe na Terra. Mas encontrei um lugar que me proporcionou a tranquilidade necessária para que eu evoluísse em minha caminhada: tanto a terrena quanto a espiritual.
E isso já é muito mais do que se pode pedir a Deus.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Autor de dez livros e premiado em mais de quinhentos concursos literários, é também roteirista de cinema. Em 2026, lançou o livro ROBÔS E OUTRAS CRÔNICAS NIPÔNICAS no Festival do Japão em São Paulo. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES).
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