Toda cidade tem uma história. Em Bragança Paulista, podemos contar uma parte dessa história pela água. Antes da represa, antes da expansão urbana, antes mesmo do slogan da cidade “Entre Serras e Águas”, as águas das antigas “biquinhas” já faziam parte da paisagem e da memória bragantina. Na cidade que nasceu como travessia de tropeiros e, mais tarde, fez parte da rota do café, quem a atravessava encontrava água brotando em muitos cantos: nas encostas, nas pedras e ao longo dos caminhos rurais. Pequenas fontes que escorriam silenciosamente e que, somadas, formavam uma das maiores riquezas naturais da região.
Não por acaso, já chegaram a registrar no município mais de 800 nascentes. Vale destacar: onde tem vegetação, a chuva encontra caminho para se infiltrar com calma no solo, em vez de escorrer pela superfície, lavando e levando tudo pela frente.
Foi justamente essa riqueza de águas, subterrâneas e superficiais, que colocou Bragança Paulista e outras cidades da região no centro de estudos de planejamento hídrico a partir da década de 1960 e 70. A presença do Rio Jaguari, que nasce no Sul de Minas Gerais, e do Rio Jacareí, formado na região de Joanópolis, tornou a área estratégica para a implantação de um grande sistema de abastecimento.
Desse planejamento, surgiu o Sistema Cantareira, um dos maiores sistemas de abastecimento de água do mundo, para cerca de 9 milhões de pessoas. Construído entre as décadas de 1970 e 1980, criou e interligou os reservatórios Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro por uma extensa rede de túneis e canais que aproveitam a diferença de altitude entre as bacias para transportar água por gravidade até a Região Metropolitana de São Paulo. Após Paiva Castro, a água passa ainda pelo reservatório de Águas Claras antes de chegar à Estação de Tratamento do Guaraú. Ao mesmo tempo, parte da água é liberada a jusante para as bacias PCJ, ajudando a manter os rios que abastecem cidades da região de Campinas.
E há outro dado interessante para quem vive na área urbana de Bragança. A água utilizada no abastecimento da cidade é captada no Rio Jaguari, cerca de 15 quilômetros abaixo da barragem do Reservatório Jaguari. Ou seja, a Sabesp não retira a água para Bragança diretamente da represa: a captação acontece no próprio rio, a jusante do reservatório, cujo sistema de operação libera vazões que ajudam a manter o fluxo do Rio Jaguari.

Foto: Eliana Michelan Novaes
A formação do reservatório Jaguari-Jacareí exigiu profundas transformações no território. Para a criação da represa, foi necessário o alagamento de cerca de 5 mil hectares, resultando na desapropriação de propriedades rurais, incluindo áreas de mata nativa, antigas fazendas de café, olarias e pastagens. Indenizações foram pagas aos proprietários, embora o processo tenha gerado disputas judiciais e discussões envolvendo Estado, Sabesp e municípios sobre impactos ambientais e financeiros decorrentes da obra.
Bragança Paulista possui hoje cerca de 51.200 hectares de área territorial. Desse total, de acordo com MapBiomas, ainda restam mais de 8 mil hectares de cobertura florestal, sendo aproximadamente 5 mil hectares classificados como vegetação de preservação estável, localizados principalmente nas áreas de relevo mais íngreme da região.
Mesmo assim, a paisagem continua em transformação. Dados da plataforma MapBiomas indicam que, desde 1985, cerca de 1.500 hectares de formações vegetais foram alterados no município (equivalente a 2100 campos de futebol em 40 anos). Justamente essa vegetação é o “motor” que alimenta as nascentes e corpos hídricos citados neste artigo, regulando a infiltração da água no solo e a recarga dos aquíferos.
Apesar da fragmentação da vegetação, a paisagem ainda mantém remanescentes importantes e possibilidades de conexão entre áreas naturais. Isso significa que ainda há espaço para planejar a ocupação da cidade de forma a valorizar tanto seu capital econômico quanto seu capital natural.
Mudanças aparentemente pequenas podem produzir efeitos relevantes. Alterações em poucos hectares de solo já podem modificar o caminho da água da chuva, reduzir a infiltração no terreno e aumentar o risco de enchentes ou de escassez hídrica. Em outras palavras, a paisagem pode parecer estável quando observada em mapas, mas transformações pontuais e silenciosas podem estar alterando o funcionamento dos rios e das fontes que abastecem a cidade.
Conhecer essa história é fundamental. Ela revela do que é feito o nosso território – suas águas, suas serras e suas florestas – e amplia a visão sobre o potencial que ele ainda guarda. Cada nascente, cada fragmento de floresta e cada curva de rio ou córrego conta uma parte dessa história. É essencial “REconhecer” o território que ocupamos em sua integridade, tanto as famílias naturais da cidade quanto os novos moradores que buscam tranquilidade e segurança. Preservar esse patrimônio não é apenas proteger a natureza: é garantir que as próximas gerações também possam viver em uma cidade onde a água continue brotando da terra, abastecendo pessoas, lavouras e natureza.
Por Cristiane V. Leme
Integrante do Coletivo Socioambiental Bragança Mais
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