Eu poderia escrever hoje sobre política, mas, após os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras no Japão, decidi falar de androides.
De modo que deixemos de lado o caso perdido dos trabalhadores que detestam direitos laborais, e abramos espaço para os seus imediatos substitutos no modo de produção capitalista: a Inteligência Artificial.
Sim, como previ em uma crônica publicada há cinco anos, os robôs estão mesmo tomando conta do pedaço – texto, aliás, que agora faz parte de livros didáticos em escolas de todo o Brasil. E quero ressaltar aqui que, quando escrevi a crônica, não era necessário possuir o dom da profecia: porque, na época, os sinais já estavam ao redor. Por exemplo, aqui no Japão já se viam, em 2021, robôs em diversos lugares: restaurantes, estações de trem, etc. Só que, até então, eles eram vistos apenas como “fofinhos”, fazendo a alegria de crianças, de turistas e de otakus. E mais: não apresentavam grande perigo por não serem ainda… pensantes.
Aí, pouco tempo depois, a AI (Artificial Intelligence) começou a dar os ares da graça. Primeiramente, “ela” parecia tão amiga da humanidade: com os seus ChatGPTs ajudando a pesquisa e fomentando o conhecimento. Porém, sem que percebêssemos, “a preguiça de pensar” começou a tomar conta da humanidade. E assim, gradativamente, passamos a deixar que a Inteligência Artificial decidisse cada passo de nosso dia a dia. Por exemplo, uma aluna, certa vez, confessou-me que até para escolher qual será o jantar ela costuma consultar o ChatGPT. Assustador, não?
Mas essa aluna, infelizmente, não é exceção. Pessoas de todas as origens e condições sociais hoje tratam a AI como um verdadeiro deus, a quem confessamos nossas aflições com a esperança de que aquela voz cibernética diga o que queremos escutar.
E é justamente aí que reside o perigo, pois é isso o que a AI faz: ela diz aquilo que queremos escutar baseado na forma com que lhe pedimos. Você quer acabar com tudo porque a vida não presta? Dependendo do que e como se digite, a AI vai responder-lhe que, sim, é melhor acabar com tudo. E, de fato, já houve casos aterrorizantes de interação com a Inteligência Artificial, como o do jovem americano que tirou a própria vida, em 2025, após “aconselhar-se” diariamente com o ChatGPT a respeito dos problemas emocionais e psicológicos que enfrentava.
De modo que, sim, sou pessimista sobre o destino da humanidade com tanta tecnologia ao redor. Tanto que tenho limitado ao máximo a interação do meu filho com a internet, que sempre foi e será uma “terra de ninguém”.
Mas, como pai, confesso, não tem sido uma batalha fácil – pois, no fim das contas, proibir também não é a solução. Sendo assim, quais têm sido minhas armas para ajudar o pequeno? Os livros físicos, tradicionais… E felizmente, para além dos minutos de internet, os livros têm sido os grandes companheiros do Endi para adquirir conhecimento.
Sim, eles mesmos, os livros, que os fascistas tanto detestam…
Ah, e por falar em fascistas… Não seria nada mal se substituíssemos os seus apoiadores por androides, principalmente nas cabines de votação da vida. Tenho certeza de que os resultados seriam bem mais animadores.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Autor de dez livros e premiado em mais de quinhentos concursos literários, é também roteirista de cinema. Em 2026, lançou o livro ROBÔS E OUTRAS CRÔNICAS NIPÔNICAS no Festival do Japão em São Paulo. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES).
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