20 de março de 2026
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A ESCRITA COMO TÁBUA DE SALVAÇÃO

A adolescência é palco de dores terríveis… Muitas delas vividas na solidão da incompreensão, e o fato de termos nos tornado adultos não nos autoriza a fingir desconhecê-las.

Os personagens dessa narrativa têm seus nomes reais preservados em função de uma questão ética, mas o mais importante é que eles existem.

Existir é um fardo muito pesado para alguns, e tenho pra mim que aquela professora tinha plena consciência disso. Naquela tarde, quando adentrou à sala de aula, acompanhada de seu Boa tarde firme e doce ao mesmo tempo, logo notou o semblante tristonho de Carol. E não demorou muito para que a menina, como sempre fazia, se aproximasse da mesa da professora para, como dizia ela, fazer uma breve sessão de terapia.

E isso lá é função de professor? Diriam os mais cansados e desiludidos… E em partes, eu concordo com eles, mas a professora em questão entendia que era função de ser humano colocar-se à escuta do outro.

Beatriz era mesmo assim, conseguia manter o mesmo entusiasmo e encanto pela profissão, apesar dos quase vinte anos já passados. Seus olhos já bem contornados pelos desagradáveis indicadores do tempo, os famosos pés de galinha, mantinham o mesmo brilho de outrora, e talvez por isso, não lhe fosse um fardo ouvir sua aluna.

Nem sempre fácil, é verdade, mas necessário. Houve momentos em que a experiente professora realmente não soube como aconselhar seus adolescentes, e nesses momentos, um abraço foi o suficiente.  Mas dessa vez, lhe veio à mente uma ideia.

-Quando você estiver se sentindo assim, escreva num caderno o que está sentindo… É uma forma de extravazar, para que esses sentimentos não lhe façam mal. Sentimentos ruins podem até mesmo afetar nossa saúde física, sabia? E eu não quero vê-la assim, nem com esses pensamentos que anda tendo.

Amanhã, vou trazer um diário para você! Feito! Aí você pode anotar tudo o que anda te atormentando. A escrita pode ser libertadora.

Dito e feito, no dia seguinte lá estava a professora entregando, ainda que discretamente, dentro de uma sacolinha, o prometido diário.

– Não abra, agora. Guarde na mochila.

– Você trouxe mesmo! Pensei que estivesse brincando…

– Eu não brincaria com uma promessa, disse a professora, querendo mesmo dizer que jamais brincaria com a confiança e os sentimentos de qualquer um de seus alunos.

A menina sorriu. A menina que não sorria há dias.

Ao fim da aula, entregou-se, havia dado uma olhada no diário, contrariando o pedido da professora de guardá-lo na mochila para ver só mais tarde.

– Vem até uma canetinha junto, prô!

– Vem sim, Carol.

As duas sorriram.

E eu não sei se a escrita tem mesmo algum poder… Se a escrita pode salvar alguém. Mas a professora Beatriz está convicta disso, e mal pode esperar para ver, no semblante da menina a transformação que a escrita é capaz de promover.

“Quando uma menina escreve,

leia-a com a atenção e o fascínio,

de quem acaba de se defrontar com o grande mistério.

Porque quando uma menina escreve,

uma mulher nasceu”.

Ana Raquel Fernandes

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