“Pai, afasta de nós esse cálice, Pai…
Afasta de nós esse cálice, Pai…
Afasta de nós esse cálice…
De vinho tinto de sangue”.
Ainda semana passada, empolgadíssima, trabalhei a letra de Cálice com meus alunos dos 9° s anos. E isso com o pretexto, muito bem fundamentado em meu planejamento e em todas as normas e diretrizes para o ensino de Língua Portuguesa nos anos finais do Ensino Fundamental, de “ensinar-lhes” figuras de linguagem.
O que aconteceu não foi uma simples aula, Chico com sua genialidade não se permitiria resumir a isso. Foi um deslumbre do poder da palavra. Cada metáfora, antítese, metonímia nos mostrou o quanto a língua, nossa língua materna pode.
Obviamente que preparei muito bem o terreno, oferecendo aos meus queridos todo o contexto histórico da canção, e talvez, até escrevamos uma outra muito em breve, tamanha foi a empolgação com o compositor subversivo.
Desde então, e também pelo motivo que vou expor-lhes agora, Cálice não sai da minha cabeça. Assim que soube, pelas redes sociais do caso da lâmina de vidro colocada no copo da professora Michele (e sim, nós professores temos nomes), pude sentir o gosto do vinho tinto de sangue em minha própria garganta. O fato de a lâmina de vidro ter sido colocada pelos alunos em seu copo em si já é também uma metáfora. Ainda que a de minha colega não tenha sido cortada, ainda que ela nem tenha chegado a tomar do líquido, ainda sinto o gosto metálico do seu sangue em minha garganta. E por quê?
Porque há tempos, nós professores, temos sido violentados, se não por uma lâmina de vidro, pelo “Cale-se” das autoridades e todas as suas bem-sucedidas tentativas de desunir a classe e perpetuar o projeto da falência da educação em nosso país.
O gosto de sangue persiste em minha garganta enquanto escrevo esse texto, e minha dor é perceber que ainda escreverei muitos outros semelhantes a esse.
Da sala de aula vem minha paixão e meu pesar. E essa antítese é das mais cruéis. É do tipo que não se consegue explicar, a menos que se ame a vocação de professor.
“Cálice” continua atualíssima, suas metáforas continuam mais do que necessárias e aplicáveis, porque nossa realidade, ainda que outra, permanece, em muitos aspectos, igual à de outrora.
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