21 de março de 2026
(11) 4033-8383 - (11) 9.7417-6403 -
Sub-Versão

Cãozinho

O cachorro no meio da estrada era a personificação da audácia, do abandono ou simplesmente da vida? Despreocupado, ainda me olhou nos olhos quando passei, em baixíssima velocidade, causada por ele e pelas intermináveis lombadas que compõem a estradinha por onde, às vezes, quando num dia sem muita pressa, escolho passar para evitar o pedágio.

Hoje foi um desses dias, não estava atrasada para o trabalho, na verdade, havia saído de casa até um pouco antes do habitual, então, permiti-me o relaxamento da estrada, em oposição ao caos da rodovia. Na estrada, apesar das lombadas a cada cinquenta metros, eu encontro alguma paz, árvores, araucárias, porteiras floridas, hortas e vida, saltando aos olhos e à frente do carro que se obriga a ir mais devagar, nada dos 100, cento e pouco da Fernão Dias. Aliás, nem gosto muito desse nome, nome de rodovia e de caçador de esmeraldas.

Menos caminhões também, além do cachorrinho, esses são outra espécie audaciosa, vira e mexe simplesmente se enfiam em minha frente, em ultrapassagens desnecessárias e perigosas. Detesto ficar entre eles.

As lombadas me obrigavam a diminuir a velocidade do carro, mas que obstáculo seria capaz de diminuir a velocidade e intensidade de meus pensamentos? Às vezes, esse é o obstáculo mais difícil de se transpor.

O cachorrinho conseguiu fazê-lo, muito mais que as lombadas, sua presença assim inesperada, no meio da estrada, foi capaz de desacelerar por alguns instantes meus pensamentos bagunçados. Ele estava ali, só existindo, com sua vontade irresistível de caminhar em meio à estrada, numa manhã nublada de sexta-feira. Que pensamentos rondariam seu cérebro canino? Estaria preocupado com o movimento dos carros? Sim, muita gente evita o pedágio…

Ouso dizer que não. Seu semblante lindamente adornado por manchas escuras não refletia nenhuma pré-ocupação, e gosto de usar essa palavra assim mesmo, acho que é assim que ela deve ser usada, com essa pausa, obrigando-nos a lembrar da absoluta inutilidade de se preocupar antecipadamente. Obrigando-nos a pausas necessárias vez por outra também.

A minha pausa veio sob a forma de um adorável cãozinho cruzando meu caminho a caminho do trabalho. Por um momento, abandonei meus pensamentos acelerados e desnecessários por serem cheios de ansiedade e pré-ocupações e desviei minha atenção para o fato extraordinário e óbvio de estar viva.

Mas, não se enganem, meus pensamentos ainda estão aqui, nesse exato momento, enquanto escrevo esse texto, e não me abandonarão tão cedo. Será necessária toda uma matilha de cães adoráveis para acalmá-los?

Não… basta que eu mantenha a minha própria de cães raivosos sob algum controle. Para tal, preciso da estrada e dos lembretes vivos que a própria existência me oferece. Preciso desacelerar e permitir que a vida siga sendo vida, e que eu esteja presente para desfrutá-la.

***

Siga o JORNAL EM DIA BRAGANÇA no Instagram: https://instagram.com/jornalemdia_braganca  e no Facebook: Jornal Em Dia

Receba as notícias no seu WhatsApp pelo link: https://chat.whatsapp.com/Bo0bb5NSBxg5XOpC5ypb9D


© 2026 Jornal em Dia

Contate pelo WhatsApp