“O correr da vida embrulha tudo,
a vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”.
João Guimarães Rosa
É preciso um silêncio absurdo para se fazer ouvir. E um ainda maior para ser capaz de escutar o Altíssimo. Em meio às tribulações da vida, são cada vez mais raros esses momentos de reencontro, ou seria melhor dizer, religião, sim, esta mesma do verbo latino “religare”.
Tenho aprendido a silenciar ao longo desses quarenta e um anos, logo eu, que sou das palavras e as reconheço como irmãs desde sempre. A vida, ou Ele, tem me colocado diante de situações em que minha voz se faz absolutamente desnecessária e em que questionar não é uma opção. A vida é o que é, com suas nuances mil, com esse eterno turbilhão de emoções, e, por assim ser nos exige alguma contrição.
Naquela noite, em específico, eu sentia a necessidade de estar a sós com Ele. Sem necessidade de palavra, só presença, como uma criança que se aquieta na presença do pai, sem que haja a necessidade de ele adverti-la verbalmente. Eu tinha, naquela noite, saudade do meu Pai.
Então, deixando a preguiça imposta pelas dores físicas de lado, fui ao seu encontro. E porque Ele está em todos os lugares, desde os mais inóspitos até os mais exuberantes, fui encontrá-lo em um concerto de música sacra.
Em cada um dos detalhes impressionantes das pinturas que decoravam sua casa, no Cristo crucificado, no ranger dos bancos de madeira, no murmurinho das pessoas acumulando-se à entrada, esperando que a missa terminasse, para que enfim, o rito desse lugar à música, Ele estava.
Em cada voz, lindamente trabalhada na acústica impressionante daquele lugar, Ele se fazia presente.
Logo que entrei, senti-o, sua presença preenchia aquele lugar, e logo passou a preencher minha alma também, com uma paz que não consigo descrever, diferente de toda a paz que o mundo pode me oferecer, bem como nossos pequenos prazeres, quase sempre bem egoístas.
Por isso, compreendo o incômodo de uma senhora com a conversa no banco atrás de mim. Não era mesmo o momento de verbalizar o que quer que fosse. O momento nos convidava a calar e a ouvir. Afinal, o mundo já anda muito barulhento, tanto a ponto de não conseguirmos ouvi-Lo mais.
Eu o ouvi, em alto e bom som, ao longo daquela breve quase uma hora de concerto. Ele foi claro e sereno, como bom Pai que é. Cada uma de suas palavras disse-me exatamente o que precisava ouvir.
Saí de lá com uma sensação de leveza, que me fez lembrar das palavras de seu filho: “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.
Saí com a alma leve, e isso apesar dos “problemas” que carrego em meu corpo.
Continuei em silêncio, minha conversa com Ele, desta vez só agradecendo. Às vezes, alguns minutos em silêncio, em Sua presença, são tudo de que precisamos para sentir novamente paz. E quando esse silêncio vem acompanhado por música, é que nossa religião se dá por completo!
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