08 de maio de 2026
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Crônicas de um Sol Nascente

Neste local viveu…

Nos meus tempos de Ensino Médio – então chamado de Segundo Grau –, eram a Literatura e a História as minhas matérias favoritas. Por isso o fascínio que até hoje possuo quando, por um motivo qualquer, aparece-me a oportunidade apreciá-las lado a lado.

E, no Japão, tenho vivenciado isso em muitas ocasiões; especialmente quando visito os locais que um dia abrigaram os célebres autores.

Por exemplo, em Kita-senju, que é um bairro de Tóquio localizado há apenas dez minutos de trem de onde resido, há a antiga casa de Mori Ogai (1862-1922), o celebrado autor de obras como “O Ganso Selvagem” e “Vita Sexualis”. Mori, vale frisar, também foi o fundador do Movimento Tanbi (assim mesmo, com “n”), que deu início ao Romantismo e ao Simbolismo na Terra do Sol Nascente – isso somente para terem uma ideia de sua importância para a Literatura Japonesa (e de o porquê da minha cara de espanto quando descobri que o homem era praticamente o meu vizinho).

Mas a coisa não pára por aí. Do local onde Ogai residiu, posso ainda continuar a viagem de trem e chegar, em pouco mais de meia hora, ao bairro de Ryogoku – o lugar em que viveu ninguém menos que Ryunosoke Akutagawa (1892-1927) –, este o gênio criador, entre outros clássicos, da obra-prima “Rashomon”, adaptado para o cinema por um outro gênio: Akira Kurosawa. A casa de Akutagawa não mais existe, mas NADA – reitero, NADA – foi construído no local para substituí-la. E mais: no espaço demarcado e preservado, há uma placa indicando que ali viveu Akutagawa: com uma delicadeza e um respeito pela história como só o Japão sabe ter…

Falo isso, como brasileiro, com uma certa melancolia. Pois as vezes que tive a oportunidade de visitar alguns lugares históricos, senti um certo abandono, um desrespeito até, com a memória dos grandes escritores tupiniquins. Foi esse sentimento que tive, por exemplo, quando visitei, no bairro carioca de Cosme Velho, a casa onde Machado de Assis residiu até a data de sua morte. Visitei o local em duas oportunidades. Primeiro, em 2010, quando ainda era um misto de livraria e cafeteria (se não me falha a memória). Mas, em 2015, quando lá regressei, o local já havia se transformado em uma espécie de bar de calçada, e os bêbados de suas mesas ficaram dando risadinhas ao ver o maluco aqui pedindo para tirar uma foto ao lado da placa, que dizia: “Neste local viveu Machado de Assis de 1883 até sua morte, em 1908”.

Em 2010, eu já senti o local um tanto quanto abandonado, apesar de haver ainda uma conexão com a Literatura e, consequentemente, um respeito pela memória de Machado. Mas, em 2015, quando me deparei com o bar, somente pude pensar, em minha tristeza: “É, Bruxo, ao vencedor, a cachaça…”

Hoje, não sei o que o referido local abriga – e nem quis pesquisar no Google para não ter mais decepções. Mas espero que, agora, tratem com mais carinho a memória do magistral escritor…

Capitu agradece.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários, é também roteirista de cinema. Em 2024, foi o roteirista vencedor do “WriteMovies Script Pitch Contest”, nos Estados Unidos. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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