Viralizou nos últimos dias a notícia de uma jovem – Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, 21 anos – que durante a prática de Rope Jump – um esporte radical onde a pessoa salta de um lugar muito alto presa a uma corda – que, ao ser jogada das alturas, não teve a corda presa em si, levando-a à morte.
Isso por si só já chama muito atenção, especialmente porque a prática de esportes radicais é algo que tem bastante aderência, o que exige o manuseio de regras rigorosas, além de todo cuidado e proteção necessários para que exatamente nada ocorra com os amantes dessas modalidades.
Nesse caso, algo em especial chama muito a atenção, para além do modo como a empresa supostamente operava essa atividade.
Nos vídeos e reportagens que circularam sobre esse episódio, é possível ver que havia várias pessoas ao entorno, além dos próprios instrutores que acompanharam a moça até o salto. Esses profissionais colocam em sua mão uma câmera para registrar o momento vivido, mas esqueceram do mais importante: os itens de segurança necessários numa atividade como essa. Ou seja, registrar algo – e poder compartilhar nas redes o que se faz – toma o centro da atenção muito mais do que uma inspeção completa diante de um exercício tão perigoso, em que nada pode falhar, porque isso pode – como ocorreu – custar a vida.
O “espetáculo da imagem” ganha cada vez mais centralidade nos tempos atuais. Veja: esqueceram a corda – item essencial de proteção e segurança na prática de esportes radicais –, mas não esqueceram a câmera.
E ninguém ao entorno percebeu isso também!
Ainda que toda responsabilidade seja da empresa e de seus instrutores que operavam a atividade, as pessoas ao entorno também não se atentaram e não perceberam a ausência da corda quando a moça foi arremessada a uma altura de cerca de 40 metros.
A sensação que passa é que todos aguardavam o momento exato para fazer seus registros e gravar o salto, conectados com seus equipamentos para registrar cada detalhe daquela aventura. Um fatídico episódio que parece muito sintomático dos tempos atuais: a imagem vale mais do que viver a vida.
Gravar tudo o que se faz e postar nas redes gera engajamento, likes, popularidade, alcance e viraliza num mundo onde a vida digital vale mais que a vida vivida. Nos tempos atuais, a vida virou um produto e o cotidiano gera conteúdo que alimenta o mundo digital e que pode gerar recompensas!
A desatenção cotidiana é algo típico do nosso tempo, porque a vida, de fato, parece estar “presa” dentro de um equipamento eletrônico, onde o mundo ao redor pode estar desabando e ninguém vê.
E não vê mesmo, como nesse caso. Ninguém viu, porque a vida é vista pela tela de um aparelho celular, não pelo mundo ao entorno. É na tela que as pessoas se veem e se encontram, é lá que a vida acontece e é comentada, lócus onde que faz (quase tudo) para se ter engajamento e atenção.
Em matéria para o Intercept, Fabiana Moraes relembra a produção de Ana Carolina Cortes Noronha “Dispersos em tempos de economia da atenção – a tecnologia e nós”, em que a autora “fala justamente sobre como a intensificação do uso das tecnologias digitais afeta o funcionamento do cérebro e dispersa nossa atenção. Brasileiros passam, em média, 3 horas e 37 minutos por dia nas redes sociais – é o terceiro maior tempo do mundo, atrás apenas de Quênia e África do Sul (dados do Digital 2024: Global Overview Report). Esse tempo/atenção é capturado, vendido, monetizado. E para que ele continue fluindo na direção certa, é preciso que o conteúdo seja cada vez mais extremo, mais veloz, mais intenso”.
Nos tempos atuais, exibir o que se vive vale mais que do viver a vida. É assim na sociedade do espetáculo, na qual “a atenção está tão fragmentada, tão habitualmente dispersa, que até onde ela deveria ser obrigatória, falha”; na qual viver cada momento parece ter perdido importância, porque o importante é ter um conteúdo bacana para postar nas redes sociais. Tempos em que a vida perdeu seu valor, porque o que mais vale é ter conteúdo para postar nas redes, algo que pode ser inclusive rentável no universo digital, ainda que isso custe uma vida!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.