Onze dias
10 de julho de 2026 • Por Ana Raquel Fernandes
(A metáfora da espera)
Onze dias. O suficiente para desistir, quando se está debaixo de escombros. O suficiente para não suportar. Mas quem é que estava contando? E como é que se conta os dias quando a luz não penetra? É possível perceber a distinção que se estabelece entre um dia e outro e contar, feito prisioneiro, cada dia que passa e não se vive?
Por intermináveis onze dias, uma mãe nutriu seus três filhos, quando tudo era desgraça e desolação. Ferida, ela foi capaz de nutri-los, mantendo-os vivos, sob os escombros por longos onze dias. Seu leite e sua coragem nutriram aqueles meninos, que resistiram até a chegada do resgate.
E eu me pergunto: O que nos nutre quando tudo é desolação? De onde vem nossa coragem ou a ausência dela, quando somos colocados à prova?
O mundo lá fora é lindo, feito foto recém postada no Instagram, a vida, essa incrível jornada, nem sempre é tão bonita. Quando tudo parece desmoronar, de que é que nos nutrimos? De onde vem nossa esperança?
Eu não tenho filhos, por isso não posso nem imaginar o desespero daquela mãe venezuelana, mas tenho meus próprios desmoronamentos, muitos deles, silenciosos, duram bem mais que onze dias. E não, não estou ousando compará-los ao risco de morte iminente a que aquela família foi submetida. Aliás, porque estou viva e encaro a vida como uma bênção, é que os desmoronamentos vêm.
Só tenho uma resposta para esse questionamento: Ele! É Ele quem me sustenta quando minha alma está sob escombros. Se há em mim alguma coragem, é dEle que ela vem. E sigo, não apenas sobrevivendo, mas vivendo cada dia com a graça que Ele providencia. O pão nosso de cada dia, afinal, Ele nos dá hoje. Nessa verdade, a ansiedade que nos é tão comum, perde força. A graça de viver um dia de cada vez, seja sob os escombros que a vida nos impõe ou sob os montes a que chegamos vez por outra, é suficiente para desbancar o fantasma da ansiedade.
Num mundo, onde aceleramos o áudio do Whatsapp, e não conseguimos assistir a um vídeo de mais de alguns minutos, reaprender a esperar é crucial. Onze dias aquela mãe esperou, esperou do verbo esperançar, e enquanto esperava reuniu as forças todas que não tinha para manter seus filhos amados vivos.
Tenho que esperar no mínimo três meses para o medicamento fazer efeito, mas o que são três meses para quem finalmente deixou os escombros da incerteza de um diagnóstico? Endometriose, profunda, obviamente, que como sabem, eu gosto mesmo é das profundezas. Anos à espera de um diagnóstico que justificasse minhas dores. Ele chegou, finalmente, com a ajuda de profissionais e seres humanos incrivelmente humanos que Ele colocou em meu caminho, e feito os socorristas lá na Venezuela, me puxaram dos escombros. Mas isso é assunto para uma outra crônica, assim como essa doença que atinge milhões de mulheres mundo afora. A demora em se chegar a um diagnóstico chega a ser revoltante. Sou privilegiada em muitos sentidos.
Então, com relação a esses três meses, vou vivê-los todos, mas um dia de cada vez, e agradecer por cada um deles, afinal, já consigo vislumbrar a luz!
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