Observada assim de longe, da cama, lá no alto, no teto do quarto, parecia absolutamente indefesa. Quase não se notavam seus movimentos, mas sim, eles existiam. Movia-se quase tão devagar quanto as horas daquela menina entediada. Olhar pro teto era seu passatempo preferido ultimamente, a adolescência pode ser uma fase complicada…
Trancada no quarto, a menina, por que é que ainda se referiam a ela assim? A menina, que já não era mais menina, nem tampouco mulher feita, refletia sobre a vida nesse seu estado de indefinição. Adolescer é descobrir-se, ou apenas aceitar-se? E, afinal, qual a tarefa mais difícil dentre essas duas?
Ouvia, músicas também, lia poemas dos quais nenhum de seus amigos gostava. Aliás, eram raros os que os conheciam. E observava… Observava a lentidão precisa de sua amiga. Seus olhos cansados de enxergar o mundo tal qual ele se apresentava a ela, moviam-se lentamente, acompanhando os pseudopassos da confidente. Sim, era pra ela que ela confidenciava, em silêncio suas angústias todas, como no dia em que viu Pedro com a Júlia, dois dias depois de ele ter se declarado pra ela. O que ela ia fazer? Não podia simplesmente aceitar e entregar-se à loucura da paixão adolescente. Seus pais nunca permitiriam. Mas como, em apenas dois dias, seus sentimentos mudaram?
Foi ela quem ouviu seu choro silencioso, sufocado pelo travesseiro, ninguém mais. Tudo ouvia sem esboçar qualquer reação, qualquer julgamento. Ouvia e seguia com seus passos quase imperceptíveis, quase tão imperceptíveis quanto a vida da menina. Quem a notara? Nem mesmo os olhos vermelhos e inchados geraram alguma desconfiança, ninguém os notou, e ela já havia até pensado numa justificativa pra eles, assistira a um filme muito triste, ao que a mãe responderia, não sei porque assistir essas coisas, a vida já é triste, menina, assiste uma comédia! E tudo ficaria bem.
Nada estava bem, havia tempos. Mas quem notara? Muito provavelmente apenas sua amiga. Mas ela permanecia em silêncio. Teria a menina se enganado? A pobre criatura seria absolutamente indiferente à sua dor e apenas seguia com sua existência, de maneira a ignorar por completo a da menina?
Esses pensamentos começaram a perturbá-la, de maneira que ela já não podia mais dormir, nem conseguia alimentar-se, mesmo quando a mãe, já desistente, deixava um sanduíche à porta de seu quarto. Passava todas as horas de seu dia com o olhar fixo na parede, a amiga, ou seria inimiga, continuava com seu passo quase inerte, a menina era toda ela só inércia.
O que ela sabia ou desconhecia a seu respeito, afinal? Era ela uma infiltrada, uma espécie de observadora…? Quem a havia plantado ali? Agia contra sua vontade? Tinha pensamentos autônomos? Quem era ela?
Esses pensamentos todos acelerados, intrusivos, monstruosos tiram sua paz. Quando havia verdadeiramente alguma vez se sentido em paz? Não se lembrava… A não ser, nos raros momentos me que sua mente lhe permitia revisitar aquele dia em que Pedro se declarara. Talvez a paz fosse isso, essa alegria assustadora da paixão. Porque não, a paz não podia ser a ausência total de conflitos, não, não era essa tela em branco, essa parede em branco, definitivamente é que não podia ser. Essa parede em branco, que tantas vezes suplicou para a mãe pintar de lilás, era agora seu maior tormento. Seria pior não fosse por aquela minúscula manchinha, que se movia lentamente, e isso a despeito de presenciar conscientemente ou não, seu sofrimento.
E porque era sim, indiferente, chegara a essa conclusão depois de dias e noites em claro, comeu-a. Um gosto empoeirado e amargo tomou conta de suas papilas gustativas todas. A carne, se é que se pode chamá-la assim, era rija, mínima e rija. O formato de losango também não favorecia a mastigação, era pequena demais, mas não se permitiria engoli-la sem antes desfrutar do amargor de suas carnes, vingando-se.
Mastigou-a, para só depois, engoli-la. E até hoje ninguém sabe como, depois dessa inusitada refeição, a única em intermináveis dias de jejum a que voluntariamente havia se submetido a menina transmutou-se. No lugar de seu corpinho esquálido e inseguro de sempre, surgiram folhas, milhares de folhas de papel, que se lançaram ao céu, alçando um louco voo por todo o quarto, quando este finalmente fora aberto pelas autoridades policiais.
A menina e a traça, finalmente juntas, paciente e analista, confessora e confidente, substâncias idênticas, forjadas o tempo todo no mesmo medo e do mesmo desejo, agora mortas; finalmente, viraram poesia!
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