04 de julho de 2026
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Conexões Humanas

Quem é você sem o seu trabalho?

Em festas de aniversário, jantares ou encontros casuais de bar, a coreografia social é quase sempre a mesma. Logo após as apresentações protocolares, surge a pergunta inevitável, disparada como um gatilho de reconhecimento: “O que você faz?”. Dependendo da resposta, o interlocutor calibra o nível de atenção, o tom de voz e o interesse que dedicará ao resto da conversa. Aprendemos, desde muito cedo, a ler o outro não pelos seus olhos, mas pela etiqueta colada em sua testa.
Essa transmutação da pessoa em função é um dos sintomas mais eficientes da nossa época. Não somos mais sujeitos que exercem uma atividade; tornamo-nos o médico, o motorista, a advogada, o empresário. O problema não é o trabalho em si que, bem ou mal, organiza nossa inserção na cultura e nos dá alguma ilusão de contorno, mas a nossa tese ingênua de que o crachá esgota quem somos. Criamos uma espécie de pacto com a produtividade no qual a nossa existência só é legitimada se puder ser faturada.
A fragilidade desse arranjo se revela no instante do corte. Basta uma demissão, uma aposentadoria ou uma mudança abrupta de mercado para que o sujeito desabe em um desamparo radical. Sem o espelho do cargo para lhe dizer quem ele é todas as manhãs, a pergunta “quem sou eu agora?” deixa de ser um clichê filosófico e passa a ser uma dor física. É o luto de um fantasma.
Essa lógica de se apoiar exclusivamente no olhar do outro não se restringe aos escritórios. Ela opera no casamento perfeito exibido nas redes, na maternidade idealizada, na juventude preservada a golpes de bisturi. São máscaras sociais necessárias, a psicanálise mostra que precisamos de roupas psíquicas para suportar o convívio com a alteridade, mas tornam-se perigosas quando colam na pele a ponto de esquecermos que há um corpo por baixo.
Há uma ironia fina no desespero daqueles que passam a vida escalando a montanha do sucesso corporativo apenas para, ao atingir o topo, experimentar um vazio ensurdecedor. O sujeito acorda cercado de garantias materiais, mas profundamente estrangeiro de si mesmo. Ele investiu tudo no personagem e esqueceu de financiar o autor.
Se retirássemos, por um instante, os títulos acadêmicos, os saldos bancários e as pequenas vaidades que usamos para nos proteger do desamparo, o que sobraria na poltrona da sala no domingo à noite? O desconforto provocado por esse vazio não é um defeito de fabricação; é o sinal de que há algo em nós que resiste à domesticação do mercado.
O trabalho pode nos dar sustento, status e até mesmo um destino para o nosso desejo. Mas ele é incapaz de responder pela nossa falta mais íntima. No fim das contas, a dignidade de uma vida não se mede pelo barulho que fazemos enquanto representamos nossos papéis, mas pela nossa capacidade de suportar quem somos quando o palco se apaga e tudo ao redor fica em silêncio.

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